Sulley Muntari colecionou expulsões, venceu na Inter e fez ‘gol fantasma’ pelo Milan | OneFootball

Sulley Muntari colecionou expulsões, venceu na Inter e fez ‘gol fantasma’ pelo Milan

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Conhecido pelas entradas ríspidas nos adversários, Sulley Muntari foi um personagem e tanto do futebol italiano. O ganês iniciou sua carreira na Itália, conquistou tudo com a Inter, marcou um “gol fantasma” que poderia ter decidido campeonato pelo Milan e é o segundo jogador com mais expulsões na história da Serie A. Em sua última aventura pelo Belpaese, o meia também ganhou respaldo da Organização das Nações Unidas por haver deixado o campo de jogo após sofrer racismo de torcedores do Cagliari.

Muntari é natural de Konongo, uma comunidade localizada na região Ashanti, na Gana. Formado no Liberty Professionals, do seu país, quase se transferiu ao Manchester United, em meados de 2001, quando atuava como lateral e ala pela esquerda. Na época com 16 anos, o ganês viajou para a Inglaterra, permaneceu uma semana realizando testes e encantou a comissão técnica dos Red Devils. Inclusive, uma matéria da BBC Sport, datada de 15 de maio de 2001, descreveu o jovem como “um canhoto excepcional, com estilo considerado muito similar ao de Ryan Giggs”.

Porém, o clube de Manchester não quis pagar 1 milhão de libras, valor pedido pelo Liberty Professionals, e o atleta acabou capturado pela Udinese, cuja rede de olheiros prospecta vários talentos ao redor do mundo e, após lapidá-los, os vende por uma bolada de euros. No caso de Muntari, o responsável por sugerir sua contratação fora Giuseppe Dossena, ex-jogador dos bianconeri nos anos 1980.

Figura constante nas seleções de base de Gana, Muntari chegou ao Friuli após ser vice-campeão da Copa do Mundo Sub-20, realizada entre junho e julho de 2001. Os africanos fizeram ótima campanha, de modo que encerraram o torneio com apenas uma derrota – justamente na final, para a anfitriã Argentina, por 3 a 0. Sulley disputou todas as partidas do certame. Naquela época, era um lateral-esquerdo de características bem ofensivas, mas, na Udinese, se converteu em meio-campista.

Após uma temporada no time juvenil, um tímido Muntari se juntou ao elenco profissional friulano. O então técnico bianconero, Luciano Spalletti, promoveu a estreia do jovem em setembro de 2002, num duelo perdido por 4 a 1 para o Bari, pela Coppa Italia. Na Serie A, o ganês debutou no segundo tempo do jogo contra o Milan, no San Siro, em duelo válido pela primeira rodada daquela campanha – a partida, porém, fora adiada devido a problemas de direitos televisivos.

Muntari surgiu para o futebol na Udinese, onde ficou conhecido pela versatilidade (Getty)

Apesar de sua característica ofensiva, Muntari demorou a balançar as redes pela equipe de Údine. Seu primeiro tento com a camisa bianconera saiu só em fevereiro de 2005, num empate em 2 a 2 com a Fiorentina, em Florença. Já titular absoluto, o camisa 18 mostrou mais brutalidade na temporada 2004-05, a ponto de encerrar a época com incríveis 16 cartões amarelos. Por outro lado, começou a Serie A 2005-06 balançando as redes nas três rodadas iniciais, contra Empoli, Roma e Fiorentina.

Sob as ordens de Spalletti, a Udinese atravessou uma ótima fase em meados dos anos 2000. O time contava com algumas figuras famosas do futebol italiano: Morgan De Sanctis debaixo das traves; Marek Jankulovski dando sustância pelo flanco esquerdo do campo; David Pizarro, Stefano Mauri e o próprio Muntari distribuindo bolas e pancadas na meiuca; e David Di Michele, Vincenzo Iaquinta e Antonio Di Natale no comando do ataque. As zebrette se classificaram duas vezes à Copa Uefa e uma à Liga dos Campeões durante aquele período.

Enquanto se destacava na Udinese, Muntari também encontrava mais espaço na seleção ganesa. Debutou pelo selecionado principal em 2002 e virou figurinha carimbada nas futuras convocações dos Black Stars. Em 2004, entretanto, atitudes indisciplinares do atleta fizeram o então técnico de Gana, Mariano Barreto, lhe excluir da disputa dos Jogos Olímpicos de Atenas. Ele foi substituído por Razak Pimpong.

O episódio de indisciplina, contudo, não impediu que Sulley voltasse a ser chamado para a seleção após a Olimpíada. E, em 2006, ele teve seu nome cravado na lista dos ganeses que disputariam a Copa do Mundo de 2006. Muntari e seus companheiros se classificaram para o mata-mata, mas caíram logo nas oitavas de final, diante do Brasil. O meio-campista fez três jogos, incluindo a eliminação para a Canarinho.

Na Udinese, Spalletti deixou o comando da equipe friulana, mas Muntari continuou regular. Ele era um pilar do time, oferecendo combatividade e técnica no lado esquerdo do meio-campo. Porém, em junho de 2007, foi vendido ao Portsmouth. Comprado por 7 milhões de libras, o volante se tornou, na época, a contratação mais cara da história do clube do sul da Inglaterra e assinou contrato por cinco anos.

Muito regular, o volante ganês passou pela Premier League antes de reforçar a Inter de Mourinho (New Press/Getty)

Na Inglaterra, ele encorpou um time com bons jogadores: David James, Glen Johnson, Sol Campbell, Lassana Diarra, Niko Kranjcar, Nwankwo Kanu e Milan Baros, por exemplo. Muntari chegou com status de titular, ajudou a equipe treinada por Harry Redknapp a vencer a Copa da Inglaterra e concluiu a temporada com 33 partidas, cinco gols e quatro assistências. Destaque também para duas expulsões.

Cabe frisar que, no início de 2008, Muntari e sua seleção ganesa ficaram com o terceiro lugar na Copa Africana de Nações. O meio-campista se destacou na competição, com três tentos – incluindo um na vitória por 4 a 2 sobre a Costa do Marfim, na disputa pelo terceiro posto – e três passes para gol em seis confrontos.

A boa temporada no futebol inglês fez Muntari arrumar as malas e voar de volta para a Itália no verão europeu de 2008. O motivo? A Inter de José Mourinho o comprara pelo dobro do valor que o Portsmouth pagara à Udinese. O comandante português queria Frank Lampard, mas, com a negativa do Chelsea, teve de se contentar com um jogador de características similares, porém bem menos brilhante. Sulley escolheu a camisa 11 – mesmo número que utilizara na Inglaterra – e surpreendeu positivamente.

O meio-campista assumiu a titularidade da equipe e, logo em sua estreia, marcou um gol sobre a Roma, na Supercopa Italiana vencida pela Beneamata. O ganês fez uma ótima Serie A, como titular, e marcou quatro gols, incluindo tentos sobre Juventus, Napoli (este, de letra) e Lazio. No ano seguinte, as contratações de Thiago Motta e Wesley Sneijder lhe tiraram espaço, mas ele integrou a campanha da Tríplice Coroa nerazzurra – apesar de, em um jogo contra o Catania, ter levado dois amarelos com 40 segundos em campo e quase ter atrapalhado o time.

Muntari não foi convocado para a Copa Africana de Nações de 2010 devido à ausência em uma convocação para o amistoso contra a Angola, realizado no dia 18 de novembro de 2009. Michael Essien e Kwadwo Asamoah, companheiros de Sulley na seleção, também não responderam à convocatória, mas estes, diferentemente do então meio-campista da Inter, pediram desculpas publicamente pelo ocorrido. Assim, como punição, o técnico Milovan Rajevac não chamou o nerazzurro para a competição. Porém, na Copa do Mundo de 2010, o atleta marcou presença e até anotou um gol – contra o Uruguai, nas quartas de final.

Aguerrido e técnico, Muntari faturou a Tríplice Coroa pela Inter (Getty)

Na temporada 2009-10, Muntari se mostrou um curinga na mão de Mourinho. Não à toa, atuou como volante, meia pela esquerda, meia pela direita e até lateral-esquerdo. A saída de Mourinho para o Real Madrid, após a conquista do Triplete, limitou de vez o espaço do camisa 11 em Appiano Gentile e, entre um empréstimo ao Sunderland e sua volta ao Belpaese, atuou só mais 13 vezes pelo lado azul e preto de Milão.

Com apenas três jogos no primeiro turno da temporada 2011-12, Muntari deixou a Inter. Foram 97 partidas, oito gols e dez assistências defendendo a Beneamata. Ele não precisou ir longe para encontrar outra equipe: apenas deixou o lado nerazzurro de Milão e se juntou ao rossonero. No último dia de mercado de janeiro de 2012, Sulley firmou vínculo com o Milan. Ele assinou com o Diavolo por empréstimo, mas em junho daquele mesmo ano seria contratado em definitivo.

No Milan, Muntari reforçou um setor que contava com Clarence Seedorf, Mark van Bommel, Massimo Ambrosini, Antonio Nocerino e um jovem Bryan Cristante. A forte concorrência não foi impedimento para o ganês, que logo caiu nas graças do técnico Massimiliano Allegri e se tornou titular da equipe. Estreou diante do Cesena, fora de casa, fazendo gol na vitória milanista por 3 a 1. Na rodada seguinte, no “clássico de seis pontos” contra a Juventus, o camisa 14 seria protagonista devido ao “gol fantasma”.

Logo após tirar o zero do placar, aos 14 minutos de duelo, com gol de Nocerino, o Milan chegou a marcar o segundo: Gianluigi Buffon defendeu cabeçada fulminante de Philippe Mexès, Muntari conferiu o rebote e testou para a meta. O goleiro juventino fez outra defesa espetacular, mas a bola visivelmente havia ultrapassado a linha do gol. Todos os jogadores saíram para comemorar, porém a equipe de arbitragem não validou o tento. Os comandados de Allegri até criaram outras chances para fazer 2 a 0 liquidar a partida, mas quem balançou as redes mesmo foi Alessandro Matri, atacante bianconero, aos 38 minutos da segunda etapa, deixando tudo igual: 1 a 1.

O “gol fantasma” de Muntari deu o que falar. Após o empate, Buffon disse ao site Calciomercato, que “com certeza não teria ajudado o árbitro” sobre a bola ter ultrapassado a linha do gol. Anos depois, o goleiro ratificou sua opinião. Em 2018, o árbitro do confronto, Paolo Tagliavento, relembrou o fato e se defendeu. “[…] Tive a sensação de que a bola passou completamente a linha. Se você ver as imagens, eu já estou com o braço apontando para o meio de campo. Mas precisava do ok do assistente, que estava em posição melhor, enquanto eu estava no limite da área. Ele estava concentrado na linha de impedimento e perdeu o gol; me disse que Buffon havia defendido na linha. Um pecado”, explicou, à Gazzetta dello Sport.

Depois de se dar bem pelo lado nerazzurro da capital da Lombardia, Muntari também teve uma passagem positiva pelo Milan (Getty)

Adriano Galliani, histórico dirigente do Milan, insinuou que, caso o gol de Muntari fosse validado, o Diavolo teria batido a Juventus e conquistado mais um título da Serie A. “Teríamos vencido o scudetto, não teríamos vendido Ibrahimovic e Thiago Silva, dois campeões que, depois de nove anos, ainda jogam ao máximo nível. […]”, afirmou o cartola, em entrevista ao jornal Libero, em 2020. Zlatan Ibrahimovic e Thiago Silva, duas das principais peças dos rossoneri na época, foram negociados com o Paris Saint-Germain, no verão europeu de 2012, devido à precária situação financeira do clube de Milão.

Passada toda a polêmica, Muntari terminou a temporada 2011-12 em alta no Milan. Nas férias, contudo, rompeu o ligamento cruzado anterior durante uma pelada com amigos e permaneceu seis meses de molho. Só voltaria a jogar no dia 16 de dezembro de 2012, em combate ante o Pescara, no San Siro – vitória dos rossoneri por 4 a 1. Totalmente recuperado, o ganês marcou seu primeiro gol na Liga dos Campeões em fevereiro de 2013, fechando o placar de 2 a 0 sobre o Barcelona, em Milão, pela ida das quartas de final da competição. Na volta, o Diavolo tomou um “sapeca” dentro do Camp Nou: 4 a 0.

Em 2013-14, Muntari teve a temporada mais prolífica de sua carreira: foram seis gols (cinco no Italiano) em 34 jogos. Já na seguinte, o camisa 14 se lesionou e caiu de rendimento, limitando sua participação dentro de campo. Em sua penúltima partida pelo Milan na Serie A, o ganês usou a braçadeira de capitão no clássico contra a Juventus, em Turim. Após 83 aparições, 13 gols e cinco assistências, ele rescindiu amigavelmente com o Diavolo.

Pela seleção de seu país, Sulley disputou a Copa Africana de Nações de 2012 e a Copa do Mundo de 2014. Sua jornada pelo selecionado africano se encerrou logo após a participação de Gana no Mundial realizado no Brasil. Isso porque, no dia 24 de junho de 2014, dois dias antes da última partida da fase de grupos contra Portugal, da qual estava suspenso pelo acúmulo de cartões amarelos, Muntari entrou em uma confusão. É que ele foi às vias de fato com um membro do Comitê Executivo da Federação Ganesa de Futebol, a GFA, e foi suspenso indefinidamente da equipe nacional.

“O credenciamento de Muntari para a Copa do Mundo de 2014 foi retirado com efeito imediato”, informou a GFA dois dias depois da briga. Kevin-Prince Boateng, companheiro do volante no Milan, também foi suspenso do selecionado ganês, mas por um motivo diferente: o meia insultou verbalmente o técnico Kwesi Appiah durante um treino da equipe, realizado em Maceió. Tanto Sulley quanto Boateng não defenderam mais a seleção de Gana após o torneio.

No Pescara, Muntari teve de reagir a insultos racistas de torcedores do Cagliari (Getty)

Livre no mercado depois de deixar o Milan, Muntari permaneceu um ano na Arábia Saudita a serviço do Al-Ittihad e ganhou 7 milhões de euros. Ficou um período sem jogar por nenhum clube e, em janeiro de 2017, assinou com o Pescara. A aventura do meio-campista pelos delfini foi breve – durou quatro meses –, mas houve tempo para que ele desse uma aula de como se comportar diante de insultos racistas. No dia 30 de abril de 2017, o Pescara visitou o Cagliari, na Sardenha. Alguns torcedores do time rossoblù cometeram racismo contra Sulley, que não aguentou calado.

O camisa 13, então, bateu de frente com a torcida da casa e protestou veementemente para que o árbitro do jogo, Daniele Minelli, interrompesse o confronto. Minelli, porém, puniu o meio-campista com cartão amarelo; diante da decisão do juiz, Muntari saiu de campo e, consequentemente, recebeu uma nova advertência, sendo expulso – a suspensão seria anulada posteriormente. O volante ainda se dirigiu até o setor das arquibancadas do qual os insultos se originavam e encarou os agressores, reafirmando ter orgulho da cor de sua pele. Por sua decisão diante do episódio, recebeu elogios da imprensa internacional e da ONU: o comissário de direitos humanos da entidade, Zeid Ra’ad al-Hussein, definiu a atitude do jogador como um “exemplo” e uma “fonte de inspiração” para seu trabalho diário.

Muntari deixou o rebaixado Pescara no verão de 2017 e pode ostentar o status de segundo jogador com mais expulsões na história da Serie A – 12, assim como Luigi Di Biagio, Giulio Falcone, Cristian Ledesma e Giampiero Pinzi. O primeiro é o uruguaio Paolo Montero, que acumulou 16 cartões vermelhos na elite italiana. Nos dois anos seguintes, Sulley jogou na Espanha, onde defendeu Deportivo La Coruña e Albacete.

Quando se aposentou, em 2019, o meio-campista afirmou que seu futuro não continuaria ligado ao futebol, como muitos ex-jogadores fazem depois de pendurarem as chuteiras. “Não preciso ir à TV para me sentir bem. Tenho algumas concessionárias, vou me dedicar a elas. Depois, com o dinheiro reservado, gostaria de abrir minha própria oficina. Sujar as mãos entre os carros é a coisa que eu mais amo”, contou. Assim, o ganês troca os carrinhos nos adversários pelos carrões nos pátios de suas lojas.

Suleyman “Sulley” Ali Muntari Nascimento: 27 de agosto de 1984, em Konongo, Gana Posição: meio-campista Clubes: Udinese (2002-07), Portsmouth (2007-08), Inter (2008-11 e 2011-12), Sunderland (2011), Milan (2012-15), Al-Ittihad (2015-16), Pescara (2017), Deportivo La Coruña (2018) e Albacete (2019) Títulos: Copa da Inglaterra (2008), Serie A (2009 e 2010), Coppa Italia (2010), Supercopa Italiana (2008 e 2010), Liga dos Campeões (2010) e Mundial de Clubes da Fifa (2010) Seleção ganesa: 84 jogos e 20 gols

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