O zagueiro Maurizio Turone teve carreira marcada por lance polêmico contra a Juventus

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No futebol, é muito comum que um jogador seja lembrado por um gol marcado numa situação especial. Para o zagueiro Maurizio Turone, a situação é diferente: ele entrou para a história por causa de um tento anulado de forma muito polêmica num confronto entre Juventus e Roma, decisivo para a atribuição do scudetto da temporada 1980-81. Corajoso e raçudo, o defensor teve uma carreira longa e que não se resume ao episódio gravado na memória dos torcedores romanistas: além de ter ido bem na capital, ele também se destacou pelo Milan.

Turone é natural de Varazze, cidade localizada no belo litoral da Ligúria e a menos de 40 quilômetros de Gênova, capital da região. Na sua infância, Maurizio passou a conviver com dois apelidos: Mauro, para os familiares, e Ramón para os amigos do futebol. O nome hispânico lhe foi atribuído por sua aparência: cabelos negros, pele morena e traços que lhe fariam ser tranquilamente confundido com alguém de origem espanhola, mexicana ou argentina.

Ainda garoto, Maurizio foi notado pelo Genoa e ganhou a chance de estrear pela equipe num jogo contra o Bari, em 1967, pela Coppa Italia. Depois de passar uma temporada inteira amadurecendo no time juvenil rossoblù, Turone se tornou uma figura frequente entre os titulares a partir de 1968-69, quando os grifoni disputavam a Serie B.

Ramón e o Genoa amargaram o rebaixamento para a Serie C em 1970, mas conseguiram emplacar o retorno imediato à segundona. Em 1971-72, um sólido desempenho na categoria fez com que Turone recebesse uma ótima oportunidade: foi adquirido pelo Milan, se tornando um dos principais reforços dos rossoneri naquela janela de transferências, ao lado do defensor Dario Dolci e do atacante Luciano Chiarugi.

O zagueiro chegou ao time treinado por Nereo Rocco para dar profundidade ao elenco e ser uma peça no rodízio da forte defesa, que ainda contava com Roberto Rosato, Angelo Anquilletti, Giuseppe Sabadini e o veterano Karl-Heinz Schnellinger, vice-capitão rossonero. Por causa disso, Turone não jogou tanto em sua primeira temporada pelo Milan (fez 24 das 46 partidas possíveis), mas atuou num dos confrontos mais importantes: a final da Recopa Uefa, na qual foi o líbero na vitória por 1 a 0 sobre o Leeds.

Em 1972-73, Ramón e o Diavolo também faturaram a Coppa Italia e o vice-campeonato da Serie A. O resultado obtido no certame de pontos corridos, aliás, foi uma das primeiras grandes decepções da carreira de Turone. O defensor estava em campo quando, na última rodada, o Milan foi derrotado fora de casa pelo fatal Verona e acabou vendo o título cair no colo da Juventus.

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Ao longo de seis temporadas, Turone teve papel de relevo no elenco do Milan (imago/Buzzi)

Após a desilusão, Turone se reergueu. Com a saída de Rosato para o Genoa, ganhou mais minutos em campo ao longo de 1973-74, campanha em que o Milan foi vice da Supercopa Uefa e da Recopa. O lígure se tornou titular na temporada seguinte, após o retorno de Schnellinger para o futebol alemão, e ocupou o posto por quatro anos. Nesse período, embora os rossoneri tenham acumulado poucos momentos felizes, foi um dos pilares do time.

Em 1975 e 1976, o Milan foi vice da Coppa Italia e terceiro colocado da Serie A, respectivamente. Já em 1976-77, o Diavolo brigou contra o rebaixamento no campeonato e compensou o susto com o título da copa nacional, conquistado na decisão com a Inter. O ano seguinte seria o último de Turone pelo Diavolo: depois de um desempenho regular no time de Nils Liedholm, quarto colocado no Italiano, o defensor de quase 30 anos foi liberado para permitir a ascensão de um jovem Franco Baresi. Maurizio fez 191 partidas com a camisa rossonera.

Ramón acertou com o Catanzaro, que retornava à elite após um ano na segundona. O xerife rumou à Calábria com o colega Sabadini e, pelas águias do sul, teria a possibilidade de fazer um forte trio de defesa com o experiente Claudio Ranieri. Turone acabou perdendo parte da reta final da temporada, mas contribuiu bastante para que os giallorossi permanecessem na Serie A com um honroso nono lugar e ainda fossem semifinalistas da Coppa Italia.

No verão de 1979, o zagueiro acabaria voltando a um grande palco do futebol italiano. A Roma iniciava a gestão do presidente Dino Viola e o cartola entregou o comando da equipe a Liedholm, que teria sua segunda passagem pela capital. O sueco solicitou reforços e as suas escolhas incluíam alguns jogadores experientes, como o meia Romeo Benetti e o próprio Turone – com quem o treinador havia trabalhado no Milan.

Ramón começaria a escrever a sua história pela equipe giallorossa ao rapidamente ganhar a titularidade, formando a defesa com Sergio Santarini e Luciano Spinosi. O veterano, dono de célebre mecha grisalha nos cabelos sobre a testa, se impôs durante a primeira temporada pela Loba e foi uma peça importante na conquista da Coppa Italia. Porém, o acontecimento mais marcante de sua estadia na capital ocorreu no ano seguinte, em 10 de maio de 1981.

Naquele dia, Juventus e Roma se enfrentavam no estádio Comunale de Turim e fariam uma partida decisiva. A equipe de Liedholm, embalada pela contratação de Paulo Roberto Falcão e pela consolidação de Carlo Ancelotti e Bruno Conti, se tornara tão competitiva que chegava à reta final da Serie A com chances de título: faltando três jogos para o término do certame, estava apenas um ponto atrás da Velha Senhora, a líder. Os giallorossi embarcaram para o Piemonte com grandes expectativas, já que uma vitória permitiria ultrapassar a adversária na tabela e abriria caminho para a conquista do seu segundo scudetto, quase 40 anos após o primeiro. Afinal, nas duas últimas rodadas, os adversários da Loba seriam muito acessíveis – a já rebaixada Pistoiese e o Avellino.

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Zagueiro durão, Ramón rapidamente caiu nas graças da torcida giallorossa (La Roma)

A partida teve pouco futebol e ânimos bastante acirrados. Além de constantes discussões entre os jogadores e até um princípio de confusão generalizada, controlada pelo árbitro Paolo Bergamo, muitas faltas ocorriam no gramado do Comunale. Até que, aos 62 minutos, Giuseppe Furino, volante e capitão da Juve, recebeu o cartão vermelho por uma entrada violentíssima sobre Domenico Maggiora. Com um a mais, a Roma não chegou a ter notória vantagem no duelo, mas criou uma chance claríssima.

Faltando 10 minutos para o fim da partida, Ancelotti iniciou uma jogada e colocou a bola na testa de Roberto Pruzzo, que ajeitou para Turone: o líbero se infiltrava em velocidade, cabeceou para o gol e venceu o arqueiro Dino Zoff. Parecia que a equipe visitante havia conseguido o placar de que precisava. No entanto, o auxiliar Giuliano Sancini levantou a bandeira e sinalizou o impedimento a Bergamo, que anulou o tento. A Roma protestou, mas a contestação foi ineficaz: a decisão foi mantida, o duelo terminou empatado em 0 a 0 e a Juventus manteve a vantagem na liderança.

Com dois jogos restantes, o título ainda estava em disputa. A Juventus venceu os seus compromissos (1 a 0 sobre Napoli e Fiorentina, respectivamente), enquanto a Roma só superou a Pistoiese, pelo mesmo placar: desmotivada pelo tento de Antonio Cabrini, em meados da etapa inicial da partida ocorrida em Turim, na derradeira rodada, a Loba só conseguiu empatar com o Avellino, por 1 a 1, e amargou o vice-campeonato. Uma história que seria diferente se o gol de Turone não tivesse sido anulado.

O tento invalidado deu origem a uma grande polêmica, que acendeu a forte rivalidade com a Roma e perdura até hoje entre os adversários da Juventus. O fato é que as imagens da TV nunca esclareceram, de forma definitiva, se a posição do jogador era irregular ou não. Naquela época, o monopólio da transmissão era da Rai e as câmeras da emissora não estavam posicionadas em ângulos favoráveis para uma avaliação minuciosa.

Nos anos seguintes, opiniões conflitantes, projeções com novas tecnologias e até supostas manipulações no uso da câmera lenta no lance continuaram a manter o tema aquecido. O chamado “gol de Turone” é relembrado todo dia 10 de maio ou quando Juventus e Roma se enfrentam em partidas decisivas.

Os seus protagonistas, porém, reagem de forma conflitante quando o assunto ressurge. Sempre que tem a chance, Ramón gosta de salientar que não aguenta mais ser procurado por jornalistas para falar do lance. Por sua vez, o árbitro Bergamo afirma que, embora tenha tenha validado o gol inicialmente, precisava confiar na avaliação de seu auxiliar, bem posicionado no lance. Sancini garante que viu Turone em posição irregular. Em 2021, numa entrevista ao jornal Il Tempo, o bandeira ainda declarou que a Roma merecia aquele scudetto: na sua opinião, o time da capital fizera um campeonato melhor do que a Juventus.

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Pela Roma, Turone é mais lembrado por um gol que não pode comemorar (Arquivo/AS Roma)

A polêmica pelo gol anulado e a rivalidade entre Roma e Juventus permaneceu para a posteridade, mas a Loba logo teve a chance de dar o troco na Velha Senhora. Cerca de um mês depois, as equipes se enfrentaram pelas semifinais da Coppa Italia e os giallorossi levaram a melhor: vitória por 1 a 0 em Turim e empate por 1 a 1 na Cidade Eterna. Na decisão, Turone e seus companheiros superaram o Torino pela segunda vez consecutiva e deram o quarto título do torneio aos capitolinos.

Mauro ainda disputou uma temporada como titular da Loba e, em 1982, após 93 partidas pela agremiação, rumou ao Bologna, recém-rebaixado à Serie B pela primeira vez em sua história. Aos 34 anos, Turone ainda viveu a continuação do inferno rossoblù: em profunda crise, o time emiliano amargou o descenso à terceira divisão. Quase simultaneamente, a Roma faturou o scudetto em 1983 e, nas comemorações, Falcão dedicou a conquista a Ramón.

Caminhando para o fim da carreira, Turone voltou a morar em Varazze, onde nascera. Ali, pegava o seu carro e dirigia alguns quilômetros para disputar três temporadas da Serie C2: as duas primeiras com o Savona e a terceira com a Cairese, times sediados em cidades vizinhas. Aos 37 anos, pendurou as chuteiras.

Fora dos gramados, além de fugir de jornalistas que perguntam sobre o seu gol anulado, Turone leva uma vida tranquila em Varazze, onde vive até hoje. O ex-zagueiro chegou a trabalhar como olheiro de Genoa e Lazio, além de ter atuado brevemente em cargos de diretoria do clube rossoblù e do Savona. Ramón continuou ligado à Roma mesmo depois de se aposentar e teve experiências como embaixador da equipe em visitas a escolinhas dos giallorossi em diversos países espalhados pelo planeta. Não tinha como ser diferente. Afinal, Mauro é considerado um ícone romanista por ter protagonizado o lance que inflamou o antagonismo entre os capitolinos e a Juventus.

Maurizio Turone Nascimento: 27 de outubro de 1948, em Varazze, Itália Posição: zagueiro Clubes: Genoa (1967-72), Milan (1972-78), Catanzaro (1978-79), Roma (1979-82), Bologna (1982-83), Savona (1983-85) e Cairese (1985-86) Títulos: Serie C (1971), Coppa Italia (1973, 1978, 1980 e 1981) e Recopa Uefa (1973)

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