O rebaixamento do Werder Bremen consumou um fracasso ensaiado, com inação e falta de alternativas

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O rebaixamento do Werder Bremen na Bundesliga não surpreende, considerando a “força” que os Verdes fizeram para cair durante os últimos anos. Nas dez edições anteriores do campeonato, o clube nunca ficou acima da oitava colocação e, por quatro vezes, figurou entre os seis últimos – disputando os playoffs contra o descenso em 2019/20. A lição não foi assimilada no Weserstadion e o Bremen consumou seu descenso no último final de semana, caindo direto, na penúltima colocação. Mas se a queda parece corresponder a anos desanimadores no norte da Alemanha, ela também é um ponto fora da curva na história de uma das agremiações mais vitoriosas do país. Os alviverdes só tinham passado uma temporada fora da elite desde a criação da Bundesliga em 1963/64.

O Werder Bremen conquistou a segunda edição da Bundesliga, em 1964/65. Todavia, o costume dos Verdes era figurar no meio da tabela e a equipe sofreu seu primeiro rebaixamento em 1979/80. Dá para dizer que a queda possui seu peso histórico no Weserstadion, considerando a forma como o clube se reergueu a partir de então. O acesso veio de imediato em 1980/81. E, treinados por Otto Rehhagel, os Papagaios viraram uma verdadeira força no Campeonato Alemão nesta volta. Nas oito primeiras temporadas após o acesso, o time sempre ficou entre os cinco primeiros colocados. Conquistou a Bundesliga novamente em 1987/88 e registraria também boas campanhas continentais no período. Já no início dos anos 1990, houve a reconquista da Bundesliga em 1992/93, além de dois troféus na Copa da Alemanha e um na Recopa Europeia.

A saída de Rehhagel em 1995 marcou o fim de uma era no Werder Bremen, após 14 anos sob as ordens do treinador. Os Verdes passaram uma fase instável no fim dos anos 1990, até a recuperação com um pupilo do antigo comandante: Thomas Schaaf, antigo lateral nos anos gloriosos, que já tinha virado técnico da base quando ainda era atleta. A nova era vitoriosa começou com a Copa da Alemanha em 1999, mas teria seu auge a partir do título na Bundesliga 2003/04. Foram cinco edições seguidas em que o Bremen acabou entre os três primeiros do campeonato. Neste ínterim, seria mais duas vezes campeão da Pokal e uma vez vice da Copa da Uefa, derrotado pelo Shakhtar Donetsk na final de 2009.

Schaaf deixou o cargo em 2013, quando o Bremen não conseguia montar mais elencos competitivos e passou a vagar no meio da tabela da Bundesliga. E nunca mais o clube se recuperaria. Longe das competições europeias, os Verdes veriam seus recursos minguarem. As contratações seriam menos certeiras, pautadas muitas vezes em medalhões que não traziam perspectivas em médio prazo. Conviver com a pasmaceira virou até lucro aos Papagaios, pois era sinal de que o time não correria risco de rebaixamento. Quando muito, o Bremen ensaiava uma classificação à Liga Europa, o que não se concretizava. Em 2021, a agremiação completou dez anos longe do cenário internacional, o que teve um peso considerável em suas finanças.

Em meio a tal mediocridade, o técnico Florian Kohfeldt parecia inspirar novos ares no Weserstadion. Considerado um prodígio à frente das categorias de base, ele assumiu a equipe principal em meio ao caos na temporada 2017/18. O Werder Bremen passou o primeiro turno na zona de rebaixamento, mas conseguiu se recuperar a partir da chegada do comandante e escapou do descenso sem tantos sustos. Kohfeldt foi ainda melhor em 2018/19, quando os Verdes almejaram a volta aos torneios continentais e terminaram na oitava colocação. Alguns até sonhavam com um renascimento. Ficou no sonho.

O Bremen caiu vertiginosamente em 2019/20. O estilo de jogo mais reativo de Kohfeldt não deu resultados e a equipe passaria quase todo o segundo turno na penúltima colocação. A diretoria bancou o treinador e a salvação aconteceu de maneira dramática. Na rodada final, uma inesperada goleada por 6 a 1 contra o Colônia tirou os Verdes da zona direta de rebaixamento e o levou aos playoffs, punindo o Fortuna Düsseldorf. Já no duelo da salvação contra o Heidenheim, o Bremen encarou momentos de real perigo, mas escapou graças a dois empates. A lição era expressa e o time precisava se mexer para a atual temporada.

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Kohfeldt permaneceu respaldado no cargo e a decisão da diretoria era compreensível de início, considerando o que o treinador tinha conseguido antes de sua temporada ruim no comando. O elenco também segurava jogadores promissores como Josh Sargent, Milot Rashica e Maximilian Eggestein. Mas a saída de Davy Klaassen ao Ajax teria um peso enorme, sem mais a referência técnica no meio-campo. Além disso, os próprios reforços deixaram a desejar. Os principais acertos foram a compra definitiva de atletas que já estavam no grupo, como Leonardo Bittencourt e Ömer Toprak. Tahith Chong também veio emprestado pelo Manchester United, mas passou longe de cumprir as expectativas.

Apesar da inação no mercado, no papel, o Werder Bremen não era time para cair. O clube reúne vários jogadores de seleção, a exemplo de Jiri Pavlenka, Niklas Moisander, Ludwig Augustinsson, Theodor Gebre Selassie e Yuya Osako. Se imaginar a Liga Europa parecia muito, dava para passar menos sufoco que na campanha passada. E foi isso que o primeiro turno indicava. Durante o início da Bundesliga, o Bremen empatou muito. Emendou cinco placares de 1 a 1. Mesmo assim, se mantinha acima da zona de rebaixamento e chegou a abrir 12 pontos em relação ao Z-2 durante o bom início do segundo turno. No início de março, com o 11° lugar, nada indicava o pesadelo no Weserstadion. O problema é que os Verdes pararam no tempo.

A reta final da Bundesliga acabou marcada pela reação de muitos dos ameaçados. Não do Schalke 04, que naufragou com uma das piores campanhas da história. Em compensação, outros tantos melhoraram. O Mainz 05 foi aquele que protagonizou a maior escapada, ao registrar um desempenho digno dos primeiros colocados da tabela. O Arminia Bielefeld foi outro que conseguiu sobreviver com muita luta. Já o Werder Bremen degringolou nos dez últimos compromissos. Tudo bem que a tabela não ajudou, mas a reta final dos Verdes foi desastrosa. O time somou um mísero ponto em 30 possíveis.

O sinal de alerta veio numa série de cinco derrotas consecutivas, mas contra adversários duros – Bayern, Wolfsburg, Stuttgart, Leipzig e Dortmund. Já a certeza de que a coisa poderia ficar feia surgiu no confronto direto com o Mainz. Os alvirrubros ganharam por 1 a 0 no Weserstadion e ultrapassaram os alviverdes, que caíram para o 15° lugar. Mesmo assim, havia uma diferença de quatro pontos em relação ao Z-2. As derrotas para Union Berlim e Augsburg na sequência cavaram um pouco mais o buraco, assim como o empate diante do Leverkusen era insuficiente. O Bremen chegou na rodada final na zona dos playoffs, mas com uma situação bastante delicada para evitar a queda direta.

O Colônia que tanto tinha ajudado um ano antes, afinal, aparecia na penúltima colocação. Os Bodes eram os únicos que poderiam rebaixar o Werder Bremen, um ponto à frente. E a tabela favorecia demais a equipe, que pegaria o horrível Schalke 04. Se os três pontos do Colônia eram quase certos, o Bremen teria mais dificuldades contra o Borussia Mönchengladbach, brigando pela Conference League. O desfecho dos jogos confirmaria os piores temores da torcida alviverde. O Gladbach não encontrou problemas para anotar 4 a 2 no Weserstadion, em reação dos Papagaios só ocorrida nos minutos finais – mas com uma chance enorme desperdiçada por Davie Selke quando dava para forçar o empate. Já o Colônia precisou de um gol no fim, mas confirmou sua sobrevida ao bater o Schalke e ultrapassar os alviverdes. O rebaixamento do Bremen era fato consumado, sem playoffs desta vez.

O clima ao redor do Weserstadion se transformou ao longo do sábado. Uma multidão se reuniu nas imediações do estádio para apoiar o time e transmitir energia antes do jogo decisivo. Com a derrota combinada à vitória emocionante do Colônia, a confusão se tornou enorme. Confrontos ocorreram, reprimidos com gás de pimenta e jatos de água pela polícia. Os jogadores tiveram que sair por um portão alternativo, para evitar o embate com os torcedores e os questionamentos. A frustração se desencadeava em revolta contra o Bremen.

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Florian Kohfeldt foi demitido apenas após a penúltima rodada. Se a diretoria tinha méritos por apostar no jovem treinador, demorou demais para sacá-lo diante da situação insustentável na reta final. A cartada desesperada seria no “fato novo”, e com um velho ídolo, o diretor técnico Thomas Schaaf que reapareceu no banco depois de oito anos apenas para o jogo contra o Gladbach. No fim, um dos treinadores mais vitoriosos dos Verdes não merecia esse capítulo melancólico em seu histórico. Não deu para motivar um elenco que se desconcentrou e abusou dos erros na reta final. Se a fórmula do futebol reativo de Kohfeldt valeu uma semifinal de Copa da Alemanha, em campanha ajudada pelos sorteios, ela passaria longe de ser suficiente nos desafios que a Bundesliga exige.

O Bremen sofrerá um desmanche na segundona. Lideranças como o capitão Moisander e o lateral Gebre Selassie (o estrangeiro com mais jogos na história do clube) não terão seus contratos renovados, apesar da enorme identificação. Jovens como Rashica e Sargent também devem se recolocar no mercado. A situação não parece tão dramática quanto a do Schalke 04, com problemas estruturais mais profundos. Mesmo assim, as dificuldades de reconstruir o elenco e o encolhimento financeiro já foram problemáticos ao Werder Bremen nos últimos anos. Numa realidade de pandemia, com as contas menores, o rebaixamento cobra seu preço. E a presença do rival Hamburgo, bem como do Schalke, diminui o gargalo na segunda divisão. Ainda há o risco de que o Colônia caia nos playoffs, o que pode aumentar as dificuldades de uma segundona estelar – que inclui ainda Nuremberg, Hannover 96 e Dynamo Dresden entre as camisas mais pesadas.

Talvez o primeiro passo para reconstruir o Werder Bremen seja sua defesa. Por mais que Kohfeldt fosse um treinador reativo, fica difícil de admitir os 24 gols sofridos nas dez rodadas finais, representando bastante a derrocada. Mesmo Jiri Pavlenka, um bom goleiro, não podia evitar o pior. Faltava equilíbrio a um time que dependia de um futebol parco de ideias. Dá para questionar o peso da idade na proteção, já que muitos dos medalhões se concentram na zaga – e alguns deles já arrumam as malas. Ainda assim, fica difícil de defender o trabalho de Kohfeldt quando uma de suas virtudes se esfarelou no momento decisivo.

Mas não que as coisas na frente tenham funcionado tão bem. Sem muitos recursos, os Verdes naufragaram com sete tentos anotados nesta reta final. Os gols vinham a conta-gotas e não eram suficientes diante dos rombos na proteção. A queda de um jogador-chave como Rashica, que parecia mais interessado na transferência futura e acabou no banco durante o fim da Bundesliga, é uma questão. Mas, ainda que Sargent tenha recebido certa badalação, não é que o americano fez exatamente um campeonato regular. Ninguém esteve à altura de Max Kruse desde sua saída em 2019. Além disso, algo já sentido na campanha passada, o desempenho no Weserstadion foi paupérrimo, com somente três vitórias. O aproveitamento foi melhor como visitante do que como mandante.

Kohfeldt em muitos momentos parecia não ter uma alternativa de jogo para o Bremen. O início do treinador até apresentava um futebol mais agressivo, mas a escassez de peças resultou em ideias engessadas. E se durante parte desta campanha certa dose de sorte garantiu pontos aos Verdes, a maré virou na reta final e expôs as carências. Além do mais, a própria diretoria não indicava caminhos para repensar o planejamento do clube o quanto antes. Neste sentido, aliás, gera interrogações quem será o novo escolhido para o comando técnico, diante das dificuldades da chefia em apontar um substituto a Kohfeldt.

A reconstrução do Bremen será uma grande incógnita. Com dívidas na casa dos €75 milhões, não é que o clube possua uma situação financeira tranquila, por mais que a perspectiva de reabrir os portões do Weserstadion em breve ajude. As receitas cairão 40% na segundona e a folha salarial pode ser cortada em até 60%. Se alguns destaques sairão, a reposição não deve ser tão simples. E ninguém pode acusar os Verdes de se distanciarem dos seus. A derrocada acontece com Thomas Schaaf na posição de dirigente, além de antigos ídolos como Marco Bode e Frank Baumann na gestão esportiva. Foram eles também responsáveis pelos erros e que precisarão repensar os rumos.

O rival Hamburgo é um exemplo daquilo que o Werder Bremen não quer viver. Os dois oponentes do norte chegaram a disputar uma semifinal de Copa da Uefa há 12 anos e, mesmo com contas robustas, perderam fôlego. Hoje em dia, passam longe de ambicionar a Salva de Prata. E se a queda à segunda divisão pode representar um recomeço, como foi com Otto Rehhagel em 1981, as distâncias na Bundesliga aumentaram para tamanha escalada. Voltar à elite de imediato já seria um alívio, considerando o nível da concorrência que haverá na segundona. Ver um Bremen competindo em alto nível, como há pouco mais de uma década, parece não mais que um sonho distante.

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