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O futebol uruguaio entra em greve diante das ameaças de violência contra o Villa Española, uma bandeira política dentro do esporte local

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O futebol profissional do Uruguai entrou em greve e os jogos válidos pela rodada do Torneio Intermédio, assim como os duelos pela segunda divisão do Campeonato Uruguaio, não serão realizados neste final de semana. A ação é liderada pela Mutual de Futbolistas Profesionales, a entidade representativa dos jogadores profissionais no país. A associação apoia o Villa Española, clube que passa por intervenção do Ministério da Educação e Cultura desde a última semana. Segundo a Mutual, há graves episódios de violência ocorrendo na equipe da segunda divisão, em ameaças de torcedores contra jogadores, dirigentes e funcionários. Existe um contexto amplo, sobretudo por conta dos posicionamentos políticos dos aurirrubros.

A intervenção do MEC sobre o Villa Española expõe entraves envolvendo o clube. O governo tomou o controle da agremiação pelos próximos seis meses. Segundo o ministro, a ação atende a uma denúncia realizada por um grupo de sócios, de que estariam ocorrendo violações estatutárias na instituição. O clube não cumpriria medidas tomadas nas assembleias, existiriam irregularidades contábeis e nem mesmo o calendário de eleições estaria sendo cumprido. Ainda considerariam que o Villa “se transformou numa instituição social e esportiva com enunciados políticos”. A Direção Nacional de Assuntos Constitucionais e Legais afirmou que o descumprimento estatutário seria “grave e de toda a natureza”. Um interventor foi designado pelo ministério para convocar eleições e regularizar os processos internos, inclusive o uso de redes sociais.

Em meio à intervenção promovida pelo MEC, o posicionamento político do Villa Española é colocado em xeque. Durante as últimas temporadas, o clube se tornou reconhecido pela atuação na comunidade e pela postura contundente em suas manifestações. Rebaixado da primeira divisão na última temporada, o Villa realizou diferentes ações contrárias à ditadura que vigorou no Uruguai, inclusive lançando uma camisa que estampava os rostos de pessoas desaparecidas durante o regime. Também atuou em benefício de seu bairro, com a distribuição de cestas básicas a famílias carentes durante a pandemia e a organização de programas em apoio à comunidade, como a inauguração de uma biblioteca na sede do clube e de uma horta pública – como bem contou Iuri Müller, no blog Meia Encarnada.

Todavia, esse alinhamento político do Villa Española gerou cisões, a ponto de antigos dirigentes afirmarem que “a torcida se dividiu”. Troféus chegaram a aparecer misteriosamente numa caçamba de entulhos próxima à sede, enquanto muros foram pichados contra o posicionamento adotado pela atual direção. E neste contexto se insere a denúncia. Causa estranhamento que, apesar dos entraves estatutários serem mais antigos, as denúncias só tenham surgido num momento de tensão política entre membros do clube e aqueles insatisfeitos com o posicionamento – como bem explica Roberto Jardim, autor do livro Democracia Fútbol Club. Não à toa, a intervenção do MEC é vista como censura.

Em entrevista ao jornal El País concedida ainda em março, o ex-presidente Edgardo Ramos Verde, um dos principais opositores da atual gestão, explicitou sua insatisfação: “A cultura de bairro vem desde que nós estávamos. Gosto do que eles fazem, na parte cultural, musical, a cantina. Mas tenho muitas divergências. Não gosto de ir ao estádio e que haja uma faixa dizendo ‘nunca mais’. Você está no limite entre o que são direitos humanos e política. Por que eu, no clube, tenho que assumir bandeiras? O estatuto do clube é claro, é o de qualquer associação civil, em que é proibida qualquer manifestação política ou religiosa”. O ex-dirigente ainda crê que os posicionamentos afetam o lado esportivo, algo rechaçado pelos próprios jogadores.

Secretário geral do Villa Española, Omar Cazarré defendeu o clube na mesma reportagem: “Acho que há alguns erros em não entender bem o papel dos clubes. O que nunca foi ultrapassado pelo clube é que não pode ter manifestações partidárias. O clube não fez isso. Falar dos desaparecidos, embora seja político, não é política partidária”. Já o presidente Miguel Romero complementava: “Apoiar a cultura de bairro é uma maneira de construir e pensar coletivamente, sobretudo incorporando o valor social de nossa instituição, já que o Villa Española é um clube social e esportivo”.

Durante o último final de semana, já depois da decisão do ministério, o Villa Española enfrentou o Racing pela segunda divisão do Campeonato Uruguaio. Os jogadores realizaram um protesto antes da partida, com cartazes reforçando o posicionamento político adotado até então e as ações no bairro. Traziam frases como “nunca mais”, “construção social e cultural”, “cultura de bairro” e “ao Villa com amor”. A intervenção do MEC ainda não é completa, com dirigentes mantidos em seus cargos pelo menos até 19 de julho, enquanto ainda existe a possibilidade de recorrer à decisão do ministro.

Depois do jogo contra o Racing, porém, um grupo de pessoas presente nas arquibancadas ameaçou os atletas do Villa Española, que ficaram 45 minutos nos vestiários até se sentirem seguros para sair do estádio. Conforme o secretário geral do Villa, neste grupo estava “um ex-presidente” e outras pessoas que fizeram a denúncia ao MEC, mas nem todos eram torcedores. Outras ameaças já tinham sido relatadas antes, inclusive numa assembleia realizada no último mês de dezembro.

Na esteira dos acontecimentos, nesta semana o Villa Española apresentou uma denúncia contra as ameaças feitas a membros do clube. Além disso, emitiu um comunicado em que fala sobre “um clima de extrema violência que se potencializou desde a intervenção”. Conforme os aurirrubros, jogadores e funcionários vêm recebendo, de forma sistemática, ameaças de morte e agressão física. “No clube intervieram o MEC e a violência. Ao primeiro, respondemos com vontade democrática e autocrítica. À segunda, respondemos condenando e nos afastando dessas lógicas, que são precisamente as que queremos erradicar do esporte e do bairro”, afirma a nota.

Dirigentes da atual gestão, que mantinham seus cargos enquanto a intervenção não se concretiza, resolveram deixar o Villa Española. Também saiu o capitão Santiago “Bigote” López, jogador histórico da agremiação e uma das lideranças no posicionamento político. O veterano resolveu se aposentar do futebol. Anteriormente, Bigote teve sua casa pichada com ataques à sua postura. O técnico Diego Franco foi mais um que pediu demissão diante da situação.

Até pelo clima instaurado, o Villa Española não pretende recorrer à intervenção do MEC. Conforme membros dos aurirrubros, o aumento das ameaças ocorreu justamente depois que a administração atual se mostrou aberta a receber a intervenção e a adaptar seus processos. Por outro lado, um grupo de torcedores denominado “La 79” resolveu desmentir o clube e dizer que o episódio ocorrido contra o Racing foi isolado, em resposta ao comportamento agressivo de Bigote López diante das críticas.

Fato é que, no geral, o futebol uruguaio apoia o Villa Española. A intervenção do MEC foi bastante questionada, inclusive por torcidas e representantes de outros clubes. Além disso, com a escalada da violência, a Mutual resolveu agir para se solidarizar com os jogadores e cobrar medidas protetivas maiores dos dirigentes. A entidade reitera que sua posição não é contra a intervenção, mas sim contra a violência.

“Desde sempre, assumimos o compromisso de trabalhar na erradicação da violência, devendo exigir de todos os atores do futebol igual compromisso. É por isso que a Mutual resolve parar a atividade do futebol uruguaio profissional. Exigimos das autoridades competentes que de forma urgente se investigue, com o fim de esclarecer os episódios de violência publicamente denunciados e se brindem as garantias necessárias para a normal prática de nossa profissão. Na Mutual, não vamos olhar para o lado e não vamos ser cúmplices da violência imposta por terceiros alheios à prática do esporte, que unicamente geram danos ao nosso futebol e nossa sociedade”, afirma o comunicado da Mutual.

Esta é a quarta greve realizada no futebol uruguaio desde 2019, embora as três últimas tenham sido lideradas pelos árbitros, por conta de ameaças e falta de garantias. Nesta sexta, aconteceu uma reunião do governo com representantes da federação uruguaia e da Mutual. Foram oferecidos reforços na segurança dos times, mas a greve continua neste final de semana. Nos últimos meses, intensificaram também episódios de violência envolvendo outros clubes profissionais do Uruguai. O caso com o Villa Española se torna a gota d’água, à espera de medidas mais efetivas em relação à proteção dos futebolistas. Novas reuniões ocorrerão na próxima semana para decidir a retomada das competições.

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