Não, estúpido: Cristiano Ronaldo não afetou ações nem vendas da Coca-Cola, que aumentaram no trimestre

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Você certamente se lembra da cena de Cristiano Ronaldo tirando as garrafas de Coca-Cola na coletiva da seleção de Portugal, antes da estreia dos Lusos na Euro 2020 (se não lembra, é só ver aqui no vídeo acima deste texto). Além de afastar as garrafas de Coca e da cerveja Heineken, o português ainda disse “água”, rejeitando ambas. Foi um furor. A cena gerou manchetes e, no dia seguinte, alguém teve uma ideia que pode parecer boa, mas é só estúpida: relacionou a atitude do jogador a uma queda nos preços das ações da empresa, que teria perdido bilhões em valor de mercado. Só que não foi bem isso que aconteceu.

A fonte mais citada dessa bobagem foi o Marca, que “analisou” (hahaha) o valor de mercado na empresa baseado na flutuação do valor das ações. Relacionou a queda de ações da empresa, naquele dia, com a ação do astro português. Que história saborosa, não é? É deliciosamente tentador acreditar que os dois eventos estão ligados. Exceto pelo fato que é uma história fabricada a partir de suposições imprecisas, se não completamente falsas. Os dados daquele dia, em uma análise um pouco mais criteriosa, e os números divulgados pela empresa sobre o seu segundo trimestre, fechado em junho, dizem isso.

Ronaldo não teve impacto relevante nas ações da Coca

Aos fatos: a coletiva no dia 14 de junho começou às 15h45 no horário local, 9h45 no horário de Nova York, onde as ações da Coca-Cola são negociadas. O mercado é aberto às 9h30 com as ações da Coca negociadas a US$ 55,74 e, às 9h44, já tinha sofrido uma queda de 0,9% – o que significaria uma queda de US$ 2,1 bilhões no seu valor de mercado, para US$ 55,25. E a coletiva de Cristiano Ronaldo sequer tinha começado ainda.

Se a ação de Ronaldo foi a responsável pela queda, isso seria visível no gráfico de valores das ações da empresa, mas não é o que é mostrado. Na verdade, quando a coletiva começou o valor das ações chegou a aumentar ligeiramente, depois caiu para US$ 55,21 antes de fechar em US$ 55,20 às 10h20 no horário de Nova York. Ou seja: a coletiva teve um impacto pequeno nesse sentido. Mas a ideia de que as ações caíram por causa do português é apetitosa demais e muitos veículos não resistiram em repercutir.

O que explica isso? Em parte, um atraso que há nos gráficos de ações da bolsa, em geral com 20 minutos de atraso e não efetivamente em tempo real – algo que custa caro aos sites, o que faz a maioria não pagar por isso. Ou seja: alguns podem ter visto a queda que já tinha acontecido antes com um atraso e ligaram uma coisa na outra. Veja: a queda foi de pouco mais de 1%. Bingo! Temos uma história. Só não é verdade.

A rigor, houve uma queda de apenas 0,25% no pregão daquele dia. Ou seja, a queda falada, que chegaria a cerca de 1,6%, nem durou o dia todo. Uma variação bastante comum e influenciada por uma dezena de fatores. Depois do fechamento, inclusive, a ação da empresa chegou a ter uma leve alta. Segundo a Forbes, do momento que Cristiano Ronaldo mexeu nas garrafas de Coca até o fechamento do pregão em Wall Street, o preço das ações da Coca aumentou US$ 0,30, o que significa um aumento de US$ 1,3 bilhão no valor de mercado. Foi por causa de Ronaldo? É claro que não. Analistas indicam que a queda no dia, que aconteceu antes da coletiva, tem outros fatores envolvidos.

“A queda da Coca-Cola no dia 14 [de junho] é efeito do desconto no preço da ação de um dividendo que está sendo pago, de cerca de 42 centavos por ação. O que acontece é que uma coisa coincidiu com a outra. A mídia disse que esta queda teve a ver com a visibilidade do gesto de Cristiano Ronaldo, e nada mais longe da realidade”, explica Darío García, analista da corretora XTB, à agência de notícias Efe, segundo reportado pela DW Brasil. “Esse comportamento tem mais a ver com a midiatização daquele ato do que com o impacto no momento em que ocorreu”.

“A Coca-Cola é a marca mais consumida no mundo. Tem muito mais gente que conhece a Coca-Cola do que o Cristiano Ronaldo. Naquele dia, o S&P 500 [índice das 500 principais empresas da Bolsa de Valores de Nova York] caiu mais do que a Coca-Cola”, afirmou Javier Arizmendi, gestor de ativos da Tressis e ex-atacante de Atlético de Madrid e Deportivo de La Coruña, à agência Efe, ainda segundo a DW.

Por que isso aconteceu? Viés de confirmação

Como explica uma matéria da Forbes, há uma questão relativamente simples de entender nesse caso: o viés de confirmação. Segundo o dicionário Oxford, a palavra do ano em 2016 foi “pós-verdade”, definida como “relacionar ou denotar circunstâncias nas quais fatos objetivos são menos influentes em moldar a opinião pública do que apelos à emoção ou crença pessoal’. Hum, sentiu a pancada? Esse modelo ganhou tração na campanha de Donald Trump à presidência, mas era algo que já existia antes – e passou a ser até estratégia usada não só pelo ex-presidente americano, mas também por vários políticos pelo mundo.

A Forbes relata que nós, leitores, somos naturalmente programados para aceitar “evidências” que apoiem nossas crenças pré-existentes, ou seja, viés de confirmação, e a desconsiderar argumentos opostos. Hum. Sentiu uma familiaridade? Isso afeta não só políticos, mas as pessoas e os negócios também. Inclusive aqueles responsáveis por tomarem posições estratégicas.

Vendas da Coca aumentaram no segundo trimestre

É claro que o endosso de uma grande estrela, ainda mais espontaneamente, gera valor para a marca e a rejeição inversamente pode causar prejuízo. O problema é assumir que foi isso que aconteceu sem qualquer dado que suporte isso. Ainda mais quando a Coca-Cola apresenta seus dados de venda, como aconteceu nesta quarta-feira, e o próprio CFO, o diretor financeiro da empresa, John Murphy diz que as vendas não foram afetadas.

Talvez você tenha pensado: “Bom, mas ele pode estar mentindo para proteger a sua empresa”. Poder, pode, mas seria, para usar palavras suaves, pouco inteligente. A Coca é uma marca que está na bolsa de valores e ele apresentava justamente dados de venda e perspectivas para os próximos meses da empresa. Mentir para os acionistas ou até fabricar números para responder a algo que se tornou um meme seria até mais estúpido do que acreditar que só a ação de Ronaldo fez as ações da Coca caírem. Os números apresentados pelo CFO da empresa foram, majoritariamente, bastante positivos.

Por isso que nesta quarta-feira Murphy respondeu que a atitude de Ronaldo não teve nenhum impacto direto na venda do refrigerante. “Você tem que ter visão de longo prazo nessas parcerias. Sempre haverá alguns eventos que não são a seu favor no meio do caminho e temos apenas que lidar com eles dessa maneira”, disse John Murphy, em entrevista. “Nosso comprometimento com esses grandes torneios não foi afetado”, afirmou ainda Murphy.

Mais do que isso: a Coca-Cola aumentou a sua receita líquida em 42% no segundo trimestre de 2021, alcançando US$ 10,1 bilhões. Isso porque contou com a recuperação de muitos mercados que afrouxaram as restrições por causa da pandemia. O lucro operacional da empresa aumentou 52%, chegando a US$ 3 bilhões. O Lucro líquido foi a US$ 2,6 bilhões, aumentando 48%. Por fim, mas não menos importante, o lucro por ação ficou em US$ 0,61.

Sabe o que afeta a Coca? A pandemia

Com isso, a Coca-Cola aumentou suas projeções financeiras e operacionais para 2021. A empresa, porém, ainda vive a incerteza da pandemia e foi muito afetada por ela, mais do que sua principal concorrente no mercado americano, a Pepsi. Isso porque a estratégia da Coca está muito vinculada a eventos e, portanto, o fechamento de restaurantes, bares, cinemas, teatros e estádios teve um alto impacto na operação da empresa. A Pepsi tem como ponto focal da sua operação os mercados, que tiveram um impacto menor – em alguns casos, nem tiveram impacto significativo.

A Coca tem em conta que pode haver uma nova retração pelo impacto que a variante Delta pode causar nas economias de vários países, obrigando o fechamento de bares e restaurantes, por isso, a Coca-Cola também tem um plano para lidar com isso, se baseando no que fez durante a pandemia. “Se voltarmos a fechar os lugares ou tivermos restrição de capacidade reimplantada, as vendas da Coca vão sofrer. Por essa razão, a vemos como mais arriscada que a Pepsi”, disse Garrett Nelson, analista de mercado da CFRA Research.

A influência de Ronaldo nas ações da Coca foi muito menor do que o anunciado por alguns veículos de imprensa que embarcaram nessa barca furada – sabendo disso ou não. Mais do que isso: a Coca na verdade está em uma posição bastante sólida e melhorando seus números de vendas no trimestre que incluiu esse episódio com Ronaldo. E não, é claro que o aumento não tem nada a ver com o astro português também. Só precisamos parar de acreditar em histórias só porque elas fazem sentido e confirmam o que nós mesmos queremos achar. Frequentemente, as lendas são mais saborosas que as histórias verdadeiras. O problema é que jornalismo (ainda) é feito escrevendo não-ficção. Ou deveria ser.

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