Léo Santos revela drama e bastidores de sua volta ao time do Corinthians: “Pensei em parar”

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Em 16 de novembro de 2016, aos 17 anos de idade, Léo Santos sentiu pela primeira vez a sensação de defender o time principal do Corinthians.

Aquela estreia, já como titular, no Estádio Orlando Scarpelli, obviamente representa um marco na carreira do zagueiro. Foi a materialização de um sonho que nasceu com pouco tempo de vida. No entanto, por mais incrível que possa parecer, não significou mais do que entrar em campo para jogar os minutos complementares da partida contra o Ituano, na Neo Química Arena, no último domingo. Quem garante é o próprio jogador.

“Na concentração, entrando no ônibus para ir para a Arena, como eu estava muito tempo longe, você já não sabe em qual banco você vai sentar, você espera o pessoal sentar, como se fosse a primeira vez. Eu fiquei mais nervoso agora do que antes”.

Nessa entrevista exclusiva à Gazeta Esportiva, Léo Santos revela que se viu abatido a ponto de pensar em desistir durante a temporada 2020, quando não podia fazer nada além de cumprir com a programação dos médicos.

“Chegou um momento, um breve momento, você acaba nem percebendo, eu pensei em parar. Não em parar, mas eu pensei: ‘acho que não vou mais conseguir jogar em alto nível, os movimentos não vão ser iguais eram antes, não vou conseguir saltar…”.

Não é difícil compreender Léo Santos. Em março de 2019, após defender o Fluminense no clássico com o Flamengo, à época emprestado pelo Corinthians, ele precisou operar uma tendinite patelar no joelho. Depois, em agosto, sofreu uma fratura e teve de passar por nova cirurgia.

Quando estava prestes a retornar, em julho de 2020, o beque teve outro problema na patela do joelho. Um edema na virilha foi o último percalço antes dele ser liberado para se juntar ao elenco alvinegro.

O drama começou quando Léo Santos tinha 20 anos. A retomada veio oito meses antes do 23º aniversário do zagueiro. Foram 753 dias sem participar de uma partida de futebol.

“Foi bem complicado para mim, principalmente no ano passado. Já tinha feito as duas cirurgias, estava indo, estava indo, e aí tive uma subluxação na patela. Eu estava na bolha do Paulista, fiquei aqui trancado, não estava treinando, só na fisioterapia, isso acaba mexendo com a cabeça do cara”.

Então, entrou em cena um personagem importante em toda essa história. Joaquim Grava, chefe do departamento médico do Corinthians, não apenas liderou as cirurgias em Léo Santos como também demoveu as ideias ruins da cabeça da revelação alvinegra.

“Você tem de explicar para o atleta que ele não teve uma lesão comum, foi uma lesão considerada grave, rara no futebol. Expliquei que ele era novo, que poderia confiar, que eu ia fazer ele jogar de qualquer jeito, e fui conversando com ele, lembrando que grandes jogadores já tiveram essa vontade de parar devido a uma lesão grave. E ele confiou, começou a fazer trabalho”, relata o médico.

“Ele tinha uma atrofia, não melhorava, era uma perda da musculatura. Emocionalmente, fica um ciclo, o cara entra em processa depressivo. O cara vê jogador que fica um mês no departamento médico e vai jogar, fica esse tipo de pressão. Rede social também não ajuda nessa hora. Expliquei que cada caso é um caso, expliquei a situação do Ronaldo, que ficou um ano e meio parado e voltou. Teve outra (lesão) e voltou”.

A primeira paralização do futebol brasileiro devido a pandemia do coronavírus foi mais um fator que atrapalhou.

“Era a fase complementar, a fase que ele ia decolar. Eu trazia ele no meu consultório, mas não é como estar clube, tratando. Isso retardou também”, comenta Grava.

Demorou, foram tempos difíceis, mas Léo Santos conseguiu retomar a confiança, concluir seu tratamento e entrar em campo novamente. Agora, ele está pronto para lutar por seu espaço no time do Corinthians.

“Quando a vida pega a gente para bater de jeito, a gente tem de aprender. Me vejo, sim, uma pessoa e um jogador mais maduro, menos ansioso, consigo ter uma percepção diferente das coisas, das situações, e aprendi. Foi muito duro todo esse processo, e a gente tem de tirar, de alguma forma, alguma lição, o lado bom de toda situação”.

Leia a entrevista completa de Léo Santos à Gazeta Esportiva:

Como foi todo esse período fora, altos e baixos, cabeça… Como foi pra você?

“Foi muito complicado, porque desde o começo, desde a primeira cirurgia, era visto como uma coisa simples, era mais uma correção, uma coisa que poderia virar um grande problema, mas a gente conseguiu detectar antes, então, ia ser uma coisa simples, e aí acabou se tornando toda essa história. Foi bem complicado para mim, principalmente no ano passado. Já tinha feito as duas cirurgias, estava indo, estava indo, e aí tive uma subluxação na patela. Eu estava na bolha do Paulista, fiquei aqui trancado, não estava treinando, só na fisioterapia, isso acaba mexendo com a cabeça do cara. Em casa, por mais que esteja nessa situação, você tem sua família ali, consegue dar uma distraída, mas graças a Deus eu consegui superar tudo isso”.

Você temeu não conseguir voltar mais?

“Sim. Eu tive esses pensamentos. Sempre colocava na minha cabeça que eu tinha de superar, manter o foco. Mas, chegou um momento, um breve momento, você acaba nem percebendo, eu pensei em parar. Não em parar, mas eu pensei: ‘acho que não vou mais conseguir jogar em alto nível, os movimentos não vão ser iguais eram antes, não vou conseguir saltar…”. Conversei com o Doutro Joaquim (Grava, consultor médico do Corinthians) no ano passado, falei sobre essas situações, que eu achava que não ia mais conseguir jogar. Ele me ajudou, me tranquilizou, tenho até de agradecer a ele e a equipe dele”.

Quando você tinha 17 anos você estreou pelo Corinthians. Dá para traçar um paralelo do que foi aquele jogo no Orlando Scarpelli e agora? Qual foi a situação mais emocionante, qual te deu mais frio na barriga?

“Vou te falar que nessa minha estreia, quando eu tinha 17 anos, eu estava muito tranquilo. Eu fiquei mais ansioso, nervoso, querendo poder entrar em campo agora, nessa retomada, do que na minha estreia. Parece que foi como a primeira vez. Na concentração, entrando no ônibus para ir para a Arena, como eu estava muito tempo longe, você já não sabe qual banco você vai sentar, você espera o pessoal sentar, como se fosse a primeira vez. Eu fiquei mais nervoso agora do que antes”.

Como você soube que seria relacionado? Quem foi a primeira pessoa que você contou?

“Na verdade, ninguém chegou em mim e disse: ‘Olha, Léo, você vai ser relacionado’. Já estava se desenhando uma situação por causa desse calendário doido, se desenhando o pessoal montar dois times, um grupo para um jogo, outro grupo para outro, então, eu meio que estava com esperança de poder ser relacionado, por mais que eu não estava inscrito. Como tinha vagas em aberto, eu tinha essa esperança. E aconteceu. Fui inscrito, vi que eu estava na relação (para o jogo contra a Ferroviária). O pessoal mandou a relação, normal, e eu estava na relação, e fui para o jogo. Ninguém chegou e disse: ‘olha, você vai para o jogo’.

“E aí liguei para o meu pai. Liguei para o meu pai, para minha mãe, para contar que eu ia lá para Araraquara. Meu pai ficou bem feliz, ele sempre foi um cara que sempre esteve junto, desde pequeno, me levava para todo lugar, para jogar, para treinar, ele ficou bem feliz”.

Teve alguma lágrima nessa conversa?

“Pior que não (risos). Fico feliz, emocionado, mas de chorar eu não sou muito, não. Mas, fiquei feliz”

Como você está sobre o receio de pôr a perna, o receio de dividir?

“Hoje eu estou bem melhor (em relação) a receio. Posso falar que não tenho nenhum receio, em relação ao meu joelho, de dividir uma bola, se saltar para cabecear. No começo eu tinha bastante. Tinha bolas que eu ficava. Eu não ia, eu ficava ali, preferia ficar posicionado no campo, no treino, do que tentar fazer uma antecipação, tentar ir para um enfrentamento. Mas, hoje estou bem seguro em relação ao meu joelho, graças a Deus”.

O Cássio falou de você na frente de todo mundo, no vestiário. Como você recebeu as palavras do capitão do Corinthians?

“Cássio é um ídolo para todos. Fico muito feliz. Graças a Deus, tenho essa amizade, essa intimidade com ele. Não só como ele como também com o Fagner. Já estou aqui há um tempo, Jô, agora o Gil, Fábio Santos. E eles viram, acompanharam meu dia-a-dia, viram que não foi fácil. E é muito gratificante, foi até o que eu falei ontem (domingo) depois do jogo, fico muito feliz por ter voltado, voltado a treinar, entrar no jogo, mas fico mais feliz ainda porque foi muito nítido a felicidade de todos do grupo, comissão, diretoria, de eu poder voltar, entrar em campo novamente”.

Você volta em um momento do Corinthians cheio de zagueiros. É um momento diferente de quando você subiu. Como você chega para brigar com essa concorrência?

“Primeiro de tudo, o que tenho na minha cabeça é que é um processo. Estou recomeçando. Por mais que eu já tenha feito partida, jogado final de campeonato, todas essas coisas, estou começando tudo do zero. E, querendo ou não, tem o Raul e o João, que estão muito bem, fizeram ótimos jogos. O Gil, o Bruno Méndez, que vem numa boa fase ali, todos jogando muito bem. Cara, é um processo. Estou treinando no dia-a-dia, faço meu fortalecimento, faço musculação, procuro me alimentar bem, porque isso tudo é uma somatória para o meu processo. É dia-a-dia, e esperando uma oportunidade. Estou muito bem com isso, o pessoal é muito gente boa. É uma concorrência sadia”.

Para poder voltar a jogar depois de dois anos parado, seria uma boa ser emprestado e depois voltar ao Corinthians?

“Não penso muito nessa situação de ser emprestado. Lógico, às vezes aparece uma boa oportunidade para mim, para o clube, mas o meu pensamento hoje é o meu dia-a-dia aqui, trabalhar, ficar bem, ficar 120% em questão física, mental, e o treinamento, e deixar rolar. Meu foco está, hoje, no dia-a-dia do Corinthians”.

Você parece mais firme, mais convicto nas palavras. Você se vê mais maduro depois de todos esse problemas?

“Querendo ou não, a gente amadurece, né? Quando a vida pega a gente para bater de jeito, a gente tem de aprender. Me vejo, sim, uma pessoa e um jogador mais maduro, menos ansioso, consigo ter uma percepção diferente das coisas, das situações, e aprendi. Foi muito duro todo esse processo, e a gente tem de tirar, de alguma forma, alguma lição, o lado bom de toda situação. Procurei observar, ver alguns jogos meus, até meu dia-a-dia, como eu era com a minha família e etc. Eu percebo uma pessoa mais madura, sim”.

Manda um recado para a torcida do Corinthians. O que ela pode esperar do Léo Santos para essa temporada?

“Pode esperar um Léo Santos bem guerreiro, um cara com muita vontade, muita determinação, que não vai desistir de nada, que qualquer obstáculo vou procurar atravessar, vou procurar ajudar o Corinthians, vou procurar ajudar o grupo, e é isso. Muito feliz por tudo que tem acontecido”.

E chega de lesão.

“Chega de lesão (risos), se Deus quiser”.