Ícone de Liechtenstein, Mario Frick viveu os seus melhores momentos no futebol italiano | OneFootball

Ícone de Liechtenstein, Mario Frick viveu os seus melhores momentos no futebol italiano

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Mario Frick é um dos maiores, se não o maior jogador de Liechtenstein. Certamente, é o mais famoso deles. O pequeno país que fica entre a Suíça e a Áustria não possui tradição alguma no esporte mais popular do planeta, mas teve a sorte de contar com um brilhante atacante que defendeu suas cores com muito suor e dedicação. Frick dedicou 22 anos de sua carreira ao selecionado nacional e se transformou em uma dessas lendas que volta e meia aparecem no esporte. Durante sua longa trajetória, ele passou uma década no futebol italiano, onde viveu a sua maturidade atlética.

Liechtenstein e Frick foram feitos um para o outro. Embora tenha nascido em Chur, na Suíça, pois sua mãe procurava estruturas hospitalares melhores para dar à luz, Mario cresceu no pequeno principado e foi nele em que iniciou sua carreira no futebol. Ainda aos oito anos, em 1982, entrou na escolinha do Balzers, clube que leva o nome de uma cidade de apenas 4,5 mil habitantes ao sul do país.

Foi no próprio Balzers que Frick deu seus primeiros – e, mais tarde, os últimos – passos como esportista. Após oito anos nos juvenis, o atacante subiu para o elenco principal, em 1990, e teve uma frutífera passagem de quatro temporadas pela equipe, com duas conquistas da Copa de Liechtenstein, 97 partidas realizadas e 49 gols marcados. No verão de 1994, os números bastante expressivos despertaram o interesse de um tradicional clube de seu país natal: o St. Gallen, decano do futebol suíço, fundado em 1879.

Atuar pelos alviverdes representou um grande salto para Mario, já que ele pode assinar o seu primeiro contrato como profissional e disputar a maior liga da Suíça. O Balzers, na época, transitava entre a quarta e a quinta divisões do país vizinho, já que Liechtenstein não tem um campeonato nacional e os seus times estão inseridos no sistema futebolístico helvético. A única competição disputada exclusivamente pelos clubes do principado é a copa liechtensteinense, que levava o seu vencedor à Recopa Uefa (disputada por Frick em 1993-94) e, hoje, lhe permite disputar a Conference League.

Aos 20 anos, já como membro da seleção de Liechtenstein, Frick iniciou uma trajetória de sucesso na elite suíça – ao menos do ponto de vista individual. Nas seis temporadas seguintes, ele defendeu times que não conseguiram brigar pelo título da Nationalliga, mas sempre entregou bom futebol e foi eleito o melhor de seu país em duas ocasiões. Até 1996, Mario representou o St. Gallen, clube em que somou 75 aparições e 12 gols, de 1996 a 1999 atuou pelo Basel (com 96 partidas e 43 tentos) e, entre 1999 e 2000, foi atleta do Zürich. O atacante fez apenas 53 jogos e balançou as redes 13 vezes pelo FCZ. Nesse curto período, faturou uma copa helvética e chamou a atenção de equipes da Itália.

Depois de começar a temporada 2000-01 com a camisa do Zürich, Mario passou a ter atritos com o treinador Gilbert Gress e acabou negociado. Em novembro de 2000, o atacante foi anunciado pelo Arezzo, que estava na terceira divisão italiana e tinha o projeto de retornar à Serie B. A transferência, avaliada em 950 mil euros, fez de Frick o primeiro jogador liechtensteinense a atuar fora da Suíça.

Apesar de ser oriundo de um país de pouca tradição no futebol, Frick rapidamente se converteu na grande estrela do time treinado por Antonio Cabrini, lateral-esquerdo da Itália tricampeã mundial de 1982. Mario estreou com uma doppietta no clássico toscano com a Lucchese, válido pela 11ª rodada e vencido por 2 a 1, e guardou mais um tento na partida seguinte, contra o Como.

Quando marcava pelo Verona, Frick inflamava a torcida com hit da dance music italiana (Allsport)

Dali em diante, o atacante ficou de fora de apenas um jogo do Arezzo e desembestou a fazer gols em partidas importantes: conseguiu uma doppietta ante Brescello e Alessandria, além de uma tripletta contra o Cesena, e ainda balançou as redes nos clássicos regionais ante Pisa e Livorno. Apesar de ter anotado três vezes em três confrontos com os livorneses, que também utilizam o amaranto aretino, Frick não conseguiu fazer com que o seu time levasse a melhor sobre o rival. A equipe comandada por Cabrini ficou na quarta posição de sua chave na Serie C1 e acabou eliminada nos playoffs de acesso pelos labronici.

A temporada 2000-01 foi a única de Frick no Arezzo. Os 17 gols anotados em 25 aparições valorizam o liechtensteinense, que rumou à Serie A: Alberto Malesani, técnico do Verona, requisitou a contratação do atacante de quase 27 anos. Assim, Mario aportou no clube gialloblù por 1,5 milhão de euros e se tornou o pioneiro de seu país na elite italiana. O artilheiro ganhou a camisa 7 do Hellas, mas sabia da concorrência que enfrentaria no Vêneto, já que os mastini também contavam com nomes como Adrian Mutu, Alberto Gilardino e Adaílton.

Contrariando as expectativas iniciais, Frick foi titular do Verona. Voluntarioso e oportunista, o atacante se sobrepôs a um jovem Gilardino, de 18 anos, e ainda contou com uma séria lesão de Adaílton para se firmar ao lado de Mutu e Mauro Camoranesi, no 3-4-3 de Malesani. Depois de estrear contra a Roma, na primeira rodada da Serie A, o liechtensteinense se consolidou como referência ofensiva do time, mas só marcou na nona jornada, num empate por 2 a 2 com o Parma.

Por conta do jeito que comemorava os seus tentos, aliás, o atacante virou um ícone pop. Nas celebrações, mostrava uma camisa com a frase bilíngue “La vie c’est fantastique quando segna Mario Frick” – “a vida fica uma maravilha quando Mario Frick marca um gol”, em tradução literal do francês e do italiano. O mote era uma paródia do refrão da música La vie c’est fantastique, hit das pistas de dança da Velha Bota na época. Os versos originais do sucesso do S.M.S. e da cantora Rehb era “La vie c’est fantastique / Pourquoi tu te la complique?”, cujo significado em português seria “a vida é fantástica, por que você a complica?”.

Super Mario passou a ser querido pela torcida dos butei também pelo que produzia no gramado, obviamente. Na temporada, anotou uma doppietta numa vitória sobre o Brescia (um dos grandes rivais do Verona), um golaço em empate com o Lecce e o tento do triunfo sobre a Udinese. Frick concluiu a campanha com 26 aparições e sete gols marcados, além de muita dedicação, mas não conseguiu evitar o surpreendente rebaixamento do Hellas para a Serie B, sacramentada por derrota na última rodada, em confronto direto com o Piacenza.

Frick iniciou 2002-03 em Verona e se mudou para a região da Úmbria após um jogo pela Coppa Italia. Mais especificamente, o atacante se transferiu para Terni. O craque de Liechtenstein foi contratado por empréstimo pela Ternana – agremiação que, posteriormente, viria a lhe adquirir em definitivo.

A tratativa que levou Mario à “Manchester da Itália” gerou polêmica, visto que existe grande rivalidade entre Ternana e Arezzo, mas o liechtensteinense foi capaz de atingir o sucesso em ambos os times. Ao longo de quatro anos com a camisa rossoverde, Frick acumulou 138 aparições e 47 gols, se tornando um dos grandes ídolos da história das feras. É o quarto maior artilheiro e o estrangeiro mais prolífico que já representou a equipe.

Devido a boa passagem pela Ternana, Frick retornou à Serie A para defender o Siena na condição de veterano (New Press/Getty)

Em seu primeiro biênio em Terni, Super Mario atuou como segundo atacante, ajudando os centroavantes Massimo Borgobello e Riccardo Zampagna – de modo que não anotou tantos gols. Mesmo assim, foi um dos destaques de um time que também teve nomes como Houssine Kharja, Luis Jiménez, Roberto D’Aversa e Antonio Candreva, e se gabaritou a brigar pelo acesso entre 2002 e 2004. Nos outros dois anos, Frick passou a balançar as redes mais frequentemente e esteve entre os 10 maiores artilheiros da Serie B, ainda que a Ternana tenha caído de rendimento e sido rebaixada, em 2006.

Durante o seu período na Úmbria, o centroavante ganhou um novo apelido (“Mario Freak”, em referência à torcida organizada Freak Boys) e fez algumas amizades para a vida toda. Em 2019, por exemplo, antes de um duelo entre Itália e Liechtenstein, Frick falou, em uma entrevista à Sky Sport, sobre a ótima relação que desenvolveu com Igor Zaniolo. Enquanto eles se dividiam no ataque da Ternana, em 2002-03, os seus filhos Yanik e Nicolò (meia-atacante da Roma), então com quatro anos, costumavam brincar juntos no quintal da família liechtensteinense.

Em 2006, após o rebaixamento da Ternana, Frick – beirando os 32 anos – voltou para a Serie A. O retorno inesperado tinha um responsável: o técnico Mario Beretta, com quem o atacante havia tido grandes momentos na Úmbria, entre 2002 e 2003, pediu a sua contratação para a diretoria do Siena. Já veterano, o ícone de Liechtenstein teve o seu canto do cisne nos grandes palcos.

No primeiro ano pela Robur, Super Mario surpreendeu e se tornou a principal referência de um time que ainda tinha Enrico Chiesa, Massimo Maccarone, Francesco Cozza e Erjon Bogdani. Os bianconeri se salvaram do descenso mesmo com o segundo pior ataque e Frick foi o artilheiro do elenco toscano, com seis dos 35 gols anotados – curiosamente, todos no primeiro turno. Contudo, além de ter balançado as redes nos confrontos diretos com Torino, Messina e Catania, o liechtensteinense colaborava com muita disposição e combatividade a serviço do coletivo.

Com o avançar da idade, Frick viu Maccarone (mais jovem) ganhar peso ofensivo no ataque do Siena e se converteu em seu fiel escudeiro. Nos outros dois anos em que defendeu o time toscano, jogou mais recuado e soube aparecer em momentos decisivos para contribuir para que os bianconeri se salvassem do rebaixamento novamente. Foi assim que contribuiu com gols decisivos para magras vitórias sobre Reggina e Atalanta, mas, principalmente, para dois triunfos sobre a poderosa Roma – um por 3 a 0 e outro pelo placar mínimo, em 2007-08 e 2008-09.

Em nove anos de Velha Bota, Super Mario somou 268 partidas disputadas e 80 gols marcados. Um feito admirável para um atleta de Liechtenstein, que lhe rendeu mais dois prêmios de melhor jogador do país. Os 16 tentos em 125 aparições pela seleção também são expressivos, considerando que a equipe nacional do principado costuma ser um saco de pancadas. Frick, por exemplo, balançou as redes de adversários fortes, como Alemanha, Suécia, Romênia, Áustria e Escócia.

Além disso, o capitão guardou tentos que fizeram Liechtenstein mudar de patamar. Até 2004, a seleção do principado só havia vencido duas partidas e, com os gols de Frick, como os anotados contra a Islândia de Eidur Gudjohnsen e a Letônia de Maris Verpakovskis, conquistou mais nove triunfos. Sob a sua égide, a equipe nacional ainda somou empates inesperados contra Eslováquia, Montenegro e Portugal – esta última, munida de Deco e Cristiano Ronaldo.

Em suas três temporadas pelo Siena, Frick foi carrasco da Roma (Ansa)

Depois de deixar o futebol italiano, Frick permaneceu em atividade por mais sete anos. Nesse período, o atacante teve uma nova passagem pelo St. Gallen e uma curta experiência pelo Grasshopper, retornando às suas origens em 2011. De volta ao Balzers, que disputava a quarta divisão suíça, exerceria duas funções: a de jogador e técnico. Dentro de campo, no entanto, Super Mario resolveu se escalar como zagueiro na maior parte das vezes, mesmo vestindo sempre a camisa 10. A partir de 2013, ele teve também a atribuição de comandar a defesa da seleção de Liechtenstein.

Ter sido pau para toda obra na equipe nacional, que representou por 22 anos, de 1993 a 2015, é um dos motivos que fez Frick ser reconhecido internacionalmente: quando se pensa em Liechtenstein, a primeira memória que vem à cabeça dos fanáticos por futebol é a de Super Mario com a camisa azul e vermelha. Ele virou sinônimo de seu país. Com 125 jogos, o craque ocupa o distinto grupo de atletas atingiram tal número de partidas por suas seleções. A lenda está empatada com Roberto Carlos e tem apenas uma aparição a menos que Paolo Maldini.

Como treinador, Frick dirigiu o Balzers na quarta divisão suíça até 2017, e depois acumulou passagens pela base do Vaduz e pelas seleções sub-18 e sub-19 de Liechtenstein. Em 2018, com a saída de Roland Vrabec, Mario foi promovido à equipe principal do Vaduz, cargo que ocupa atualmente. Sob o comando da lenda, o time da capital do principado chegou a disputar a elite helvética, em 2020-21, mas foi rebaixado de imediato.

Enquanto tenta construir uma nova e gloriosa história à beira do gramado, Super Mario deixou outro legado para Liechtenstein: seus filhos Yanik e Noah, que foram batizados em homenagem ao ex-tenista francês Yannich Noah e são atacantes da seleção. O mais novo (que também tem Zinedine no nome, numa reverência a Zinédine Zidane) segue na Suíça e o primogênito joga no futebol italiano – nas divisões inferiores, representou Perugia, Livorno, Pro Piacenza e, atualmente, está vinculado ao PDHAE, da região de Vale de Aosta.

Num paradoxo, o diminuto tamanho de Liechtenstein é justamente o que confere grandeza a Mario Frick. O craque é aquele tipo de jogador que mostra o lado do futebol em que grandes atletas podem compartilhar o campo com os amadores de seleções “nanicas”. Ocupando o posto de ícone de seu país, o atacante certamente cumpriu a missão de encher de orgulho os seus compatriotas e, com sua valorosa passagem pela Itália, se tornou um exemplo para os esportistas do principado.

Mario Frick Nascimento: 7 de setembro de 1974, em Chur, Suíça Posição: atacante e zagueiro Clubes como jogador: Balzers (1990-94 e 2011-16), St. Gallen (1994-96 e 2009-11), Basel (1996-99), Zürich (1999-2000), Arezzo (2000-01), Verona (2001-02), Ternana (2002-06), Siena (2006-09) e Grasshoppers (2011) Títulos como jogador: Copa de Liechtenstein (1991 e 1993) e Copa da Suíça (2000) Carreira como técnico: Balzers (2012-17), Liechtenstein (sub-18 e sub-19; 2017-18) e Vaduz (2018-hoje) Títulos como técnico: Copa de Liechtenstein (2019) Seleção liechtensteinense: 125 jogos e 16 gols

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