Honduras de 1982: o brilho fugaz dos Catrachos no Mundial da Espanha | OneFootball

Honduras de 1982: o brilho fugaz dos Catrachos no Mundial da Espanha

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Primeira Copa do Mundo com 24 seleções, a edição de 1982 aumentou a participação das regiões consideradas “periféricas” no mapa da bola e, em contrapartida, assistiu a um número expressivo de surpresas que evidenciavam a evolução técnica e tática do jogo ao redor do planeta. Um caso nem sempre lembrado foi a estreante seleção de Honduras, que, de candidata a saco de pancada pelas previsões iniciais, acabou engrossando contra seus três adversários europeus (incluindo a anfitriã Espanha) e embolando seu grupo. Com estilo combinando técnica, força e inteligência, os centro-americanos causaram sensação, deixando o Mundial sob aplausos gerais mesmo com a eliminação ainda na primeira fase.

Antes do sonho do Mundial

Embora sua federação nacional tenha sido fundada em 1935 e filiada à Fifa em 1946, Honduras só disputou pela primeira vez uma Eliminatória de Copa do Mundo no torneio classificatório ao Mundial de 1962. Mas tanto neste quanto no seguinte, em 1966, sua participação foi discreta. Já no de 1970, o país chamaria a atenção do mundo pelo clima hostil que cercou os jogos contra o vizinho El Salvador nas semifinais da zona da Concacaf – e que deflagrariam o conflito que entraria para a história como a “Guerra do Futebol”.

Os dois países centro-americanos viviam relação política conturbada quando, em junho de 1969, suas seleções entraram em campo para as três partidas que apontariam um dos finalistas na briga por uma vaga na Copa do México. As rusgas tinham origens variadas, mas as questões migratórias e as relativas à posse de terra eram as mais latentes. Os salvadorenhos levaram a melhor em campo, mas no conflito bélico não houve vencedor: só um triste saldo de milhares de mortos, feridos e deportados de ambos os lados.

Os hondurenhos voltaram a estar relativamente próximos de disputar uma Copa nas Eliminatórias seguintes, quando conseguiram alcançar o hexagonal decisivo disputado em Porto Príncipe, no Haiti, mas terminaram apenas em quarto lugar, atrás dos classificados anfitriões e de Trinidad e Tobago e do México. Mas essa evolução foi aparentemente travada quando a seleção desistiu de participar do torneio classificatório para o Mundial seguinte, o da Argentina, antes mesmo do pontapé inicial dos jogos, em abril de 1976.

Naquele mesmo ano, porém, o futuro do futebol do país começava a se desenhar mais próspero. Entre o fim de setembro e o início de outubro, a seleção sub-20 disputou em Porto Rico o torneio da Concacaf da categoria, valendo duas vagas ao primeiro Mundial organizado pela Fifa destinado a jogadores com aquela faixa etária. Após marcar 23 gols em seis jogos nas duas primeiras fases, Honduras despachou os Estados Unidos na prorrogação nas semifinais e só parou nos pênaltis diante do México de Hugo Sánchez na decisão.

O Mundial seria disputado na Tunísia em junho e julho de 1977, e Honduras surpreenderia com uma ótima campanha, apesar de cair ainda na fase de grupos. Os centro-americanos derrotaram o Marrocos (1 a 0) e a Hungria (2 a 0), perdendo apenas para o Uruguai (1 a 0), que ficaria com o primeiro lugar e a única vaga do Grupo B nas semifinais do torneio. E deixaram o legado: nada menos que sete titulares daquela seleção de juniores também figurariam na escalação inicial do time principal na Copa da Espanha dali a cinco anos.

O caminho até a Espanha

A seleção praticamente hibernou entre 1974 e 1979, fazendo apenas uma partida considerada oficial (amistoso contra o Panamá em junho de 1977). Mas a partir de 1980 teria calendário cheio para iniciar a todo vapor o trabalho do novo comandante: José de la Paz Herrera, conhecido como “Chelato Uclés”. Ex-jogador do extinto Atlético Español, pendurou as chuteiras antes dos 30 anos e migrou para a Argentina, onde se graduou como técnico. Ao voltar a Honduras, destacou-se dirigindo tanto times grandes como pequenos.

Além de uma dezena de amistosos contra rivais da região, aquele ano marcaria também o começo da disputa das Eliminatórias para o Mundial de 1982. O torneio classificatório – que também valia para o Campeonato da Concacaf – repetia o formato das duas Copas anteriores, sendo dividido em duas etapas: uma regional, com os times divididos em três zonas geográficas, e um hexagonal decisivo (o Campeonato da Concacaf em si) disputado em turno único e com sede fixa entre as duas melhores seleções de cada zona.

Honduras nas Eliminatórias em 1981

Na fase regional, as três zonas eram as da América do Norte (que incluía apenas Estados Unidos, Canadá e México), da América Central (na qual Honduras teria como adversários Costa Rica, El Salvador, Guatemala e Panamá) e do Caribe (com seis seleções – Cuba, Haiti, Trinidad e Tobago, Antilhas Holandesas, Suriname e Guiana, que havia despachado Granada num duelo preliminar – divididas em dois triangulares, cujos vencedores avançavam ao turno final). Em todos os três subgrupos, a disputa seria em turno e returno.

Os hondurenhos começaram bem, vencendo fora de casa Panamá (2 a 0) e Costa Rica (3 a 2), mas tropeçaram seguidamente ao empatarem em casa com Guatemala (0 a 0) e Costa Rica (1 a 1) e logo depois sofrerem sua única derrota naquele torneio classificatório na visita a El Salvador (2 a 1). Mas a reação veio nos últimos três jogos: um 2 a 0 na revanche contra os salvadorenhos uma semana depois, uma importante vitória de 1 a 0 fora de casa sobre a Guatemala e, por fim, a goleada de 5 a 0 sobre o lanterna Panamá.

Com a disputa do turno final marcada apenas para novembro de 1981, a seleção seguiu fazendo amistosos para manter o ritmo. No meio daquele ano chegou a participar, na Espanha, do Torneio Ciutat de Barcelona, no qual enfrentou Espanyol e Grêmio, perdendo ambos os jogos. Mas assim que chegou a hora de virar a chave e entrar de cabeça na briga por uma das duas vagas destinadas à Concacaf, a equipe de Chelato Uclés estava afiada, além de ter outra vantagem: jogaria a etapa decisiva diante de sua torcida, em Tegucigalpa.

E, de fato, a equipe deslanchou: começou goleando o Haiti por 4 a 0, antes de derrotar Cuba por 2 a 0 e o Canadá por 2 a 1, resultados que, aliados aos muitos empates nos confrontos entre os concorrentes, deixaram os Catrachos com um pé na Copa do Mundo. Na penúltima rodada, um 0 a 0 com El Salvador garantiu não só a classificação como também o título do Campeonato da Concacaf de maneira antecipada. E ainda houve tempo para deixar o México de fora ao segurar outro 0 a 0 com os astecas na despedida.

O empate sem gols entre hondurenhos e mexicanos no dia 22 de novembro acabou beneficiando os vizinhos salvadorenhos (do atacante Jorge Alberto “Mágico” González, mais tarde consagrado no futebol espanhol), que três dias antes haviam assumido a vice-liderança ao vencerem o lanterna Haiti por 1 a 0. Entre um jogo e outro, no dia 21, um 2 a 2 entre Canadá e Cuba também havia posto fim às chances dos Canucks. As duas seleções centro-americanas seriam, portanto, as representantes da Concacaf no Mundial.

No processo entre a classificação e a disputa da Copa do Mundo, a seleção seguiu fazendo muitos amistosos, principalmente contra clubes. Mas, ao contrário dos maus resultados do ano anterior, desta vez os Catrachos – jogando em casa – tiveram desempenho mais animador. Em março, o Borussia Dortmund viajou a Tegucigalpa e acabou goleado por 4 a 1. Em maio, o Real Madrid comemorou um suado 1 a 1. E, além de dar o troco no Grêmio (2 a 0), os hondurenhos venceram também o Botafogo de Ribeirão Preto (2 a 1).

Também nesse interim entre as Eliminatórias e o Mundial alguns jogadores ficaram pelo caminho, não figurando na lista final de convocados mesmo após cumprirem papel importante na etapa de classificação. Foi o caso do rápido ponteiro Salvador “Pólvora” Bernárdez, do veterano atacante Jorge Urquía (que se aposentou ao fim de 1981) e dos centroavantes Junior Costly (irmão do zagueiro Anthony Costly) e Jimmy James Bailey, que sofreu séria lesão. Com isso, outros atletas ganharam espaço e marcaram seus nomes.

O time-base

Um deles seria o grande personagem daquela campanha: o meia Gilberto Yearwood. Titular da seleção de juniores no Mundial da Tunísia em 1977, ele foi vendido ao Elche logo após o torneio, iniciando uma carreira de nove temporadas e quatro clubes diferentes numa das principais ligas da Europa, com passagem destacada pelo Valladolid e discreta por Tenerife e Celta. Entretanto, a travessia do Atlântico lhe tirou um lugar certo na seleção principal. Até a Copa, ele nunca havia atuado num jogo oficial pelos Catrachos.

Chelato Uclés percebeu, porém, que a experiência do meia – chamado apenas pelo prenome na Espanha – seria valiosa à seleção na Copa, uma vez que ele conhecia bem o ambiente e a estrutura dos estádios Luis Casanova (nome de então do Mestalla, em Valência) – onde Honduras estrearia diante da seleção anfitriã – e La Romareda (em Zaragoza) – local dos outros dois jogos da equipe na primeira fase, contra a Irlanda do Norte e a Iugoslávia. E além da tarimba internacional havia também o ganho técnico para a equipe.

Gilberto conduzia a bola com certa elegância, tinha boa visão de jogo e sua distribuição no meio-campo era requintada: seus passes de trivela pareciam teleguiados, tal era a precisão com que sempre encontravam os companheiros de time em boa posição. Como se não bastasse, sua imposição física já o fizera atuar com certa frequência como zagueiro no futebol espanhol. Assim, mesmo entrando de última hora, tornaria-se um dos pilares daquela seleção hondurenha, uma das grandes surpresas daquele Mundial.

O técnico Chelato Uclés entrevistado durante o Mundial

E as revelações dos Catrachos já começavam no gol, com Julio Cesar Arzu, de 28 anos, excelentes reflexos, grande agilidade e coragem nas saídas da meta tanto pelo alto quando por baixo. Seria outra boa figura daquela seleção na Copa. Basta dizer que das três vezes em que foi vazado no Mundial, duas foram em pênaltis (nenhum cometido por ele) e a outra na sequência de uma cobrança de falta para a área na qual ele já tinha feito boa intervenção. Um goleiro espetacular à frente de uma defesa muito firme.

A linha de quatro defensores tinha Efraín Gutiérrez na lateral direita, eficiente tanto na marcação quanto no apoio. No miolo de zaga, destacava-se a imponência de Anthony Costly, descrito pela revista Placar como “forte, elástico, imbatível no jogo aéreo”. Características que se combinavam à experiência e discrição de seu companheiro de setor, Jaime Villegas, 31 anos. E na esquerda, o ímpeto e a velocidade de Fernando Bulnes nas subidas ao ataque chamavam ainda mais a atenção por se tratar de um jogador de 35 anos.

A trinca de meio-campo era outro ponto alto do time. Além da cadência e dos passes precisos de Gilberto Yearwood, havia também o dinamismo de Héctor Zelaya, jogador que podia atuar como zagueiro ou volante, além de batalhar em todos os setores do campo. E mais à esquerda, outro armador talentoso era o capitão do time, Ramón Maradiaga, completando um setor que tanto fazia muito bem uma segunda linha de proteção da defesa como tocava muito bem a bola e criava chances para os velozes homens de frente.

Na frente, a figura responsável pela transição do sistema entre o 4-4-2 e o 4-3-3 era o ponteiro direito Prudencio Norales. No ataque, atuava bem aberto por aquele lado. Mas quando o time não tinha a bola, ele recuava para ajudar a fechar o corredor. Completavam a equipe os outros dois homens de frente, rápidos, habilidosos e de muita movimentação: Porfirio Betancourt e Roberto Figueroa – este, que jogava partindo do lado esquerdo para o centro, contava ainda com um poderoso chute em cobranças de falta.

Honduras no álbum da Copa de 1982

Apesar da boa quantidade de talento disponível, os prognósticos para os Catrachos no Grupo 5 não eram muito animadores. Jogando em casa, a Espanha era cotada a chegar longe – parte da imprensa mundial a colocava como uma das candidatas ao título junto com Brasil e Alemanha Ocidental. A Iugoslávia era outra concorrente forte (Telê Santana a considerava inclusive a grande seleção daquela chave). Já a Irlanda do Norte corria por fora, tentando surpreender e beliscar uma das duas vagas na segunda fase.

De Honduras não se esperava nada além de três derrotas, se possível mantendo a dignidade de não sofrer alguma goleada histórica – ainda mais depois que os vizinhos salvadorenhos estrearam naquele Mundial sendo arrasados pela Hungria por 10 a 1. No dia seguinte, 16 de junho, seria a vez de os Catrachos encararem a Espanha dirigida pelo ex-zagueiro José Santamaria (uruguaio naturalizado) e que tinha como base a Real Sociedad bicampeã nacional, de onde vinham nada menos do que cinco dos 11 titulares.

As primeiras surpresas

Buscando um resultado convincente, os anfitriões saíram para decidir a parada o quanto antes, mas não contavam que a surpresa hondurenha viesse tão cedo. Aos sete minutos, uma tentativa de bola longa de José Antonio Camacho foi rebatida de cabeça por Bulnes no campo hondurenho e chegou a Zelaya na intermediária. O volante arrancou, tabelou duas vezes, livrou-se do combate de Joaquín Alonso e se aproveitou da escancarada defesa espanhola para entrar sozinho na área, tocar na saída de Luis Arconada e abrir o placar.

Honduras perfilada antes da estreia contra a Espanha

Foi quando a pressão mudou de lado. Nervosa e hesitante, a Espanha não conseguia acertar no ataque. Já Honduras defendia-se de maneira muito segura, organizada e bem posicionada. As poucas finalizações espanholas na direção do gol eram contidas sem maiores problemas por Arzu, como numa cabeçada de Juanito na primeira etapa e num chute de Miguel “Perico” Alonso após troca de passes na segunda. E, de tempos em tempos, os Catrachos ainda conseguiam envolver os anfitriões na base do toque de bola.

Honduras esteve inclusive muito perto de ampliar a vantagem aos 20 minutos do segundo tempo. Depois de Costly cortar um cruzamento na área, Figueroa recolheu a bola na meia direita e, ainda do campo de defesa, percebeu a corrida de Betancourt pela intermediária ofensiva, no mano a mano com a retaguarda local. O lançamento foi preciso. O camisa 9 dominou bonito, desceu pela esquerda, gingou na frente de Camacho e bateu cruzado e rasteiro, do lado de fora da rede, enquanto Norales acenava no meio da área.

O castigo pela oportunidade desperdiçada viria sete minutos depois, quando Bulnes derrubou Saura na área, e o árbitro argentino Arturo Ithurralde apitou pênalti. Arzu voou no canto certo, mas não conseguiu deter a cobrança de Roberto López Ufarte, que decretou o empate em 1 a 1. Apesar de não sair de campo com a vitória, a seleção de Honduras mostrou ao planeta que não seria um mero fiel da balança naquela chave. E a próxima a perceber isso seria a Irlanda do Norte, que estreou num 0 a 0 com a Iugoslávia.

Desta vez, porém, seriam os hondurenhos (com José Luis Cruz no lugar de Bulnes na lateral) a sair atrás no marcador logo no início da partida do dia 21 de junho em Zaragoza. Aos 10 minutos, o meia Sammy McIlroy bateu uma falta lateral que explodiu no travessão, quicou no chão e voltou para a cabeçada do zagueiro Chris Nicholl. Arzu ainda conseguiu espalmar, mas a bola acabou sobrando quase em cima da linha para o atacante Gerry Armstrong completar também de cabeça e abrir a contagem para os norte-irlandeses.

Diante de Arzu, Costly afasta o perigo contra a Espanha

O gol não abalou os hondurenhos, que tiveram três grandes chances para empatar ainda antes da metade do primeiro tempo. Aos 12 eles acertariam uma bola no travessão de Pat Jennings. Cinco minutos mais tarde, Figueroa testaria o veterano goleiro com um petardo em cobrança de falta. E aos 22, Jimmy Nicholl salvaria de cabeça em cima da linha uma finalização de Figueroa por cobertura após saída em falso de Jennings. Porém, a partida foi mesmo para o intervalo com os norte-irlandeses em vantagem no placar.

A Irlanda do Norte voltou melhor na etapa final, mas a maré começou a virar a favor de Honduras aos 15 minutos. O ponteiro Tony Laing entrou no lugar de Norales. No lance seguinte, Gilberto desceu pela direita e ganhou um escanteio, que Figueroa levantou na área e Betancourt cabeceou firme, mas Jennings espalmou no reflexo outra vez pela linha de fundo. Na nova cobrança, enfim, sairia o gol de empate: Laing, aquele que acabara de entrar, testou com força do lado direito da pequena área para deixar tudo igual.

O empate em 1 a 1 neste confronto e a vitória da Espanha sobre a Iugoslávia por 2 a 1 na véspera, no outro jogo da rodada, deixavam a briga totalmente em aberto no grupo para a última rodada. Porém, os jogos não seriam simultâneos (a Fifa parecia não ter aprendido a lição de 1978): no dia 25, sexta-feira, jogariam Honduras e Iugoslávia em Zaragoza. E no dia seguinte, Espanha e Irlanda do Norte mediriam forças em Valência. As possibilidades eram múltiplas, mas aos hondurenhos um empate talvez fosse o suficiente para avançar.

A dolorosa despedida

Para o jogo decisivo, Chelato Uclés também fez mudanças pontuais na equipe: o experiente Bulnes retornava na lateral esquerda no lugar de José Luis Cruz, enquanto do outro lado o titular Gutiérrez cedia o posto a Domingo Drummond. Já no ataque, Norales também deixava a equipe, mas não para a entrada de Laing, que o substituíra durante o jogo contra a Irlanda do Norte, e sim de Juan Cruz – o autor do gol no jogo anterior acabaria entrando também contra os iugoslavos no decorrer da partida em La Romareda.

Dirigidos pelo experiente Miljan Miljanić e contando com nomes badalados do futebol europeu, os iugoslavos assustaram no começo numa cobrança de falta de Vladimir Petrović que carimbou o travessão e rondaram a área hondurenha por boa parte do primeiro tempo, mas quase sempre em finalizações sem direção. Somente um chute de Miloš Šestić foi bem defendido por Arzu. Do outro lado, no entanto, os centro-americanos perderam duas chances claríssimas na reta final daquela etapa, aos 33 e aos 36 minutos.

O lateral reserva Cruz se livra de Gerry Armstrong contra a Irlanda do Norte

Primeiro um passe primoroso de Gilberto encontrou Betancourt livre entrando na área. Mas seu chute cruzado, na saída do ótimo goleiro Dragan Pantelić, passou perto da trave e foi para fora. A segunda chance clara veio na jogada seguinte a uma cobrança de falta para Honduras próxima à área. Maradiaga recuperou a bola na intermediária e entregou a Zelaya, que pegou a defesa iugoslava saindo ao encontrar o zagueiro Costly desmarcado. Sem traquejo de atacante, porém, o beque chutou completamente torto para fora.

Na etapa final, com menos de um minuto, os hondurenhos desperdiçariam outra chance clara: Betancourt cortou da esquerda para dentro e retribuiu o belo passe do primeiro tempo ao fazer a assistência para a infiltração de Gilberto no meio da defesa balcânica. Mas Pantelić saiu bem para travar o chute. E aos sete Gilberto interceptaria um passe perto de sua área e arrancaria num contra-ataque fulminante com a defesa adversária aberta. Mas seu chute forte da entrada da área acabaria novamente salvo por Pantelić.

A defesa hondurenha bloqueia um ataque iugoslavo

Depois de tantas chances perdidas, o sonho hondurenho acabaria de forma cruel. Aos 43, com as duas equipes já esgotadas, Miloš Šestić fez grande jogada pela ponta direita, passando por entre Bulnes e Maradiaga e driblando por Figueroa antes de entrar na área. Nela, sofreria o pênalti com o qual até hoje os centro-americanos não se conformam. Villegas deslizou para tentar o corte e não achou nada. E disso se aproveitou o atacante iugoslavo para saltar e cair, sem ficar claro se havia sido de fato tocado pelo zagueiro.

Só se sabe que o árbitro chileno Gastón Castro apontou para a marca penal. Naquele momento, a esperança dos hondurenhos recaía sobre Arzu, que havia de novo feito defesas muito seguras na etapa final (“com lugar já certo entre os melhores desta Copa”, escreveu o Jornal do Brasil). Mas Vladimir Petrović bateu com categoria, deslocando o arqueiro dos Catrachos. Antes mesmo do reinício, Gilberto se descontrolou e agrediu Edhem Šljivo, sendo expulso. Ao apito final, vários jogadores hondurenhos choraram no gramado.

A vitória por 1 a 0 acabou não servindo nem mesmo aos iugoslavos, já que, no dia seguinte, em outro resultado surpreendente, a Irlanda do Norte derrotou a Espanha pelo mesmo placar e se garantiu na fase seguinte junto com os anfitriões. Mas se a queda precoce soava como decepção da parte dos balcânicos, os hondurenhos saíam de cabeça erguida, certos de que sua história na Copa havia sido escrita de forma positiva. Tanto que seu desempenho atraiu os olhares do futebol europeu para vários de seus jogadores.

Depois da primeira vez

Se antes do Mundial só Gilberto atuava fora do país, outros seis foram contratados por clubes do Velho Continente, principalmente da Espanha. Se as passagens de Arzu pelo Racing Santander e de Costly pelo Málaga, ambos na primeira divisão, duraram apenas até mais ou menos a virada do ano, e se Zelaya sequer chegou a entrar em campo pelo Deportivo de La Coruña na segundona, Figueroa se destacou como titular e artilheiro do Murcia com 14 gols na campanha do título dos Pimentoneros na categoria de acesso.

Consagrado de imediato no novo clube, “Macho” Figueroa ficaria no Murcia até 1986, quando se transferiu ao Hércules, defendendo a equipe de Alicante por duas temporadas. Quem também teve carreira mais longeva no futebol europeu foi seu companheiro de ataque, Betancourt, que jogou por dois anos na França vestindo a camisa do Racing Strasbourg, vindo mais tarde à Espanha para atuar pelo Logroñés. O reserva Tony Laing, por sua vez, não teve o mesmo sucesso na Grécia, numa passagem rápida pelo Ethnikos.

Em janeiro de 1984 seria a vez do capitão Maradiaga cruzar o Atlântico para defender o Tenerife na segunda divisão espanhola, onde, apesar de ter a companhia de Gilberto, trazido do Valladolid, não chegou a fazer o mesmo sucesso do colega de meia-cancha, ficando nas Ilhas Canárias por apenas seis meses. E quase todos os citados se reencontrariam na seleção para tentar uma nova participação na Copa do Mundo pelas Eliminatórias para o Mundial mexicano, disputada em três etapas entre junho de 1984 e setembro de 1985.

Os hondurenhos no futebol europeu

Com o mesmo Chelato Uclés no comando, Honduras eliminou o Panamá numa fase preliminar, superou um triangular com El Salvador e Suriname na etapa seguinte e foi disputar a única vaga da região no Mundial (já que o México era o anfitrião) num novo triangular em turno e returno contra Costa Rica e Canadá, que assim como em 1981 também valia pelo título do Campeonato da Concacaf. Mas não repetiu o feito anterior, perdendo a classificação para os Canucks, que derrotaram os Catrachos em casa e fora.

A seleção de Honduras só voltaria a se destacar para além da Concacaf em 2001, quando disputou a Copa América como convidada de última hora após a desistência da Argentina e foi a grande surpresa do torneio realizado na Colômbia, ficando em terceiro lugar. Apesar de terem chegado para a disputa apenas horas antes de sua estreia, os Catrachos avançaram em segundo no Grupo C após vencerem Bolívia e Uruguai e fizeram história ao eliminarem o Brasil de Luiz Felipe Scolari nas quartas de final ao vencerem por 2 a 0.

O teto para aquela seleção seria a semifinal, na qual foi derrotada pelos anfitriões por 2 a 0. Mas os Catrachos ainda voltariam a superar o Uruguai, desta vez nos pênaltis, na decisão do terceiro lugar após empate em 2 a 2 no tempo normal. E apesar de ter perdido no detalhe a classificação para a Copa do Mundo do Japão e da Coreia do Sul, Honduras terminou o ano de 2001 em 20º lugar no ranking da Fifa, melhor posição de sua história. O vínculo daquela geração com a de 1982 estava no técnico: o ex-meia Ramón Maradiaga.

Costly disputa a jogada com Alesanco na estreia

Honduras enfim retornou aos Mundiais em 2010, na África do Sul. Mais uma vez eliminada ainda na primeira fase, arrancou, porém, outro empate contra seleção europeia, um 0 a 0 com a Suíça na última rodada. Nos outros jogos, derrotas para Chile (1 a 0) e Espanha (2 a 0), deixando a Copa sem marcar nenhum gol. Seu técnico era o colombiano Reinaldo Rueda, da mesma nacionalidade de Luis Fernando Suárez, o comandante na terceira e última participação dos Catrachos num Mundial, quatro anos depois, no Brasil.

Nesta campanha mais recente, Honduras perdeu as três partidas: 3 a 0 para a França no Beira Rio, 2 a 1 para o Equador de virada na Arena da Baixada e 3 a 0 para a Suíça na Arena da Amazônia. Mas seu único gol anotado também trazia recordações de 1982: seu autor foi o atacante Carlo Costly, filho do ex-zagueiro Anthony Costly e nascido poucas semanas depois de seu pai participar como titular daquele Mundial espanhol – que segue sendo a melhor campanha dos Catrachos em sua história numa Copa do Mundo.

Alguns daqueles heróis já viraram saudade. De 2020 para cá, aliás, as perdas se intensificaram: primeiro foi “Macho” Figueroa, vitimado por um infarto em maio do ano passado. E neste 2021 que termina, outros quatro personagens daquela campanha faleceram. O lateral-esquerdo José Luis Cruz e o atacante Porfirio Betancourt foram vítimas da COVID-19. O atacante reserva Celso Güity morreu de câncer. E em abril, o técnico Chelato Uclés perdeu uma longa batalha contra a diabetes aos 80 anos de idade.

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