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Entrevista com Rosângela Vieira, psicóloga do Sport, sobre a importância do profissional de saúde mental no futebol

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Na vitória por 1×0 contra o Bahia, pela 33ª rodada do Brasileirão, Everton Felipe foi eleito o melhor em campo. O prata da casa, que em outubro revelou sua luta contra a depressão, vinha tendo dificuldades para ter um bom rendimento. Mas após a ótima atuação no clássico nordestino, fez questão de agradecer ao apoio da psicóloga do clube, Rosângela Vieira.

A reportagem do MeuSport.com entrou em contato com Rosângela para uma conversa sobre a importância da presença de profissionais da saúde mental no meio do futebol. A conversa se estendeu para pautas como a dificuldade de trabalhar na área com a cultura imediatista no futebol do Brasil e a frequência com que atletas sofrem problemas de ordem psicológica. Sobre o Sport, foi falado sobre o caso de Everton Felipe e também do método utilizado para que o elenco possa buscar o milagre da permanência na Série A.

Rosângela é psicóloga clínica e esportiva, e está no Leão desde o final de setembro. Ela fez questão também de exaltar a parceria com o treinador Gustavo Florentín, um pilar para seu trabalho no clube.

Importância de um psicólogo em clubes de futebol

Estou há 20 anos em Pernambuco tentando lutar, com outros colegas, para fazer as pessoas entenderem a importância de ter um profissional de saúde mental nos times de futebol. Não só a nível de Pernambuco, mas a nível de Brasil. Os clubes precisam ter, não só profissional de saúde mental, como psicólogo, mas também psiquiatra. Existem muitos atletas que passam por questões de desregulação emocional, crises, transtornos, e não estão sendo vistos, ajudados, acolhidos.

Quando existe o profissional de saúde mental dentro dos clubes, de repente isso podia acontecer de forma mais intensa e frequente. O profissional tem facilidade, pelo conhecimento dele, de identificar quais atletas tem uma desregulação emocional a partir de uma crise que existe na vida deles e quais tem um transtorno. A importância é tremenda, sou suspeita em falar. Um dos meus sonhos é justamente fazer com que todos os clubes do Brasil tenham profissionais de saúde mental. Eu espero ver isso acontecer um dia e luto muito para isso, outros colegas também. A gente continua batalhando para que seja uma realidade a nível de Pernambuco e de Brasil.

Importância da menção feita por Everton Felipe

Acabei de compartilhar nas redes sociais o agradecimento que eu fiz a Everton. Na verdade, não só para mim, mas para a ciência da psicologia de forma geral tem uma importância muito grande. Porque muitas vezes o futebol não é um espaço que dá abertura para os psicólogos. Muitas vezes existem coachs, palestrante motivacional, outras pessoas que dão palestra, mas não se tem a nível de Brasil, um trabalho que seja planejado com um cientista da mente.

É um momento que eu estou muito feliz, não só por estar ajudando Everton Felipe, ele que é o protagonista, que conseguiu acolher essa ajuda, acreditar na psicologia, respeitar meu trabalho, ter confiança no planejamento que realizei. É extremamente relevante ter um atleta como Everton Felipe, com a história que tem em Pernambuco e outros clubes do Brasil, reconhecendo a psicologia como ciência e a importância do trabalho para a evolução dele. Na verdade, sou muito grata e serei muito grata a ele. Espero manter essa parceria, porque temos muito trabalho pela frente e estamos juntos nessa luta.

Evolução de Everton Felipe

A depressão é um transtorno mental, uma doença que afeta a mente, as habilidades cognitivas e emocionais principalmente. O tratamento ideal é o com psicoterapia, que é feito com o psicólogo e com a medicação passada pelo psiquiatra. Então a pessoa que tem depressão só vai conseguir enfrentar essa doença a partir desses dois profissionais. Fiquei feliz de Everton Felipe acreditar no meu planejamento, estar comigo nessa parceria, para que a gente faça o trabalho e o acompanhamento ideal, e por ele estar conseguindo evoluir, estar conseguindo superar. A depressão é um estado momentâneo, não é para sempre. Então que as pessoas possam acreditar e fazer o melhor para passar pelo tratamento ideal e conseguir superar esse momento.

Problemas psicológicos entre profissionais de futebol

Não só depressão e ansiedade, mas outros transtornos emocionais existem de forma silenciada no Brasil. Infelizmente, temos também casos que não são identificados nas categorias de base do futebol brasileiro. O que deveria ser feito no Brasil é o que o Sport fez: implementar um departamento de saúde mental, para que a gente possa ter esse departamento não só no futebol profissional, mas na base. Na base, a gente tá se organizando para começar no próximo ano a montar esse departamento, que vai ser coordenado por mim. Existem muitas doenças da alma que são silenciadas e não estão sendo identificadas porque não tem esse profissional em todos os clubes do Brasil. Existem atletas que tem emoções intensas negativas todos os dias, não estão sabendo lidar com essas emoções e não estão sendo acolhidos e cuidados. Isso interfere diretamente na produtividade do atleta.

Se o atleta tem um tipo de desregulação emocional ou cognitiva, vai ter uma interferência na produtividade dele de forma direta. Se não existe, no Brasil, profissionais de saúde mental para identificar e acompanhar esses atletas, o que deve estar acontecendo a nível de sofrimento? Deve ter muitas coisas que não estão sendo vistas. É uma coisa que acontece muito, que não é falada, não é divulgada, por isso fiquei feliz com esse caso de Everton Felipe, dessa parceria de divulgação e comunicação, porque precisa ser falado. Principalmente as questões ligadas á subjetividade humana. Existem sim muitos casos desse, não só no profissional, mas também na base, no futebol brasileiro.

Lidar com a cultura imediatista do futebol brasileiro

Essa cultura imediatista do futebol a gente sabe que é real. Não só futebol, mas qualquer esporte de alto rendimento é muito cruel e injusto. Fui atleta, passei por isso. Muitas vezes as pessoas querem retorno imediato, não tem paciência para dar tempo do profissional trabalhar. Nós trabalhamos em períodos de pré-competição, competição e pós competição. Temos que planejar a execução também, então temos que ter tempo. Não só a teoria do planejamento, mas a periodização da prática. A gente vê os clubes muitas vezes chamando coach, mentor, líderes religiosos. Nada contra essas pessoas, mas quem cuida de saúde mental é psicólogo e psiquiatra, então quem tem que estar nesse espaço são esses profissionais. Quando os clubes entenderem que a ciência é efetiva, comprovada e ajuda, a gente vai ter um ganho muito grande em qualidade no futebol brasileiro.

Muitas questões que acontecem durante o jogo são gatilhos emocionais que não são regulados e efetivados como deveriam ser. Infelizmente a gente sofre com essa questão das pessoas não terem paciência, de querer tudo muito rápido, e sou muito grata também, não só pelo Sport ter dado essa abertura para a psicologia, mas também ao técnico, que valoriza muito a psicologia. O Gustavo é um parceiro. Só estou aqui porque ele solicitou a psicologia, então a gente faz um trabalho periodizado, planejado, se comunicando sempre. Pergunto a ele o que ele está precisando, ele também pergunta umas questões a mim. Fico muito feliz com essa parceria de estar com todo o staff do clube em parceria com a psicologia. Quando as pessoas que estão na gestão do futebol brasileiro entenderem que a psicologia precisa estar como ciência no futebol, da base ao profissional, vamos ter uma qualidade muito melhor de produtividade e rendimento dos atletas.

Trabalho psicológico para buscar a permanência na Série A

Uma das coisas que trabalho muito com os atletas é o planejamento por etapas. A gente precisa, a cada jogo, pensar por etapas. Existem os objetivos a curto, médio e longo prazo. Na psicologia a gente sempre trabalha com atleta não só a curto prazo, mas também médio e longo. É importante identificarmos o momento para saber que objetivo vai ser utilizado. A partir disso a gente consegue reduzir o nível de ansiedade e estresse de qualquer atleta. A gente faz o atleta ficar focado e concentrado naqueles objetivos mais curtos. Quanto mais a gente conseguir periodizar e planejar os objetivos, mais motivados ficam. Mais confiantes, concentrados e atentos ao que deve acontecer em termos de metas, não só individuais, mas em grupo. É uma coisa que eu trabalho muito com todos os atletas, não só de esporte coletivo, mas individuais. Isso é fundamental para regular emoções, e a cada etapa trilhar objetivos específicos.

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