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Central do Timão
·27 de fevereiro de 2025
E-mails entre Corinthians e consultora contradizem fala de Augusto Melo sobre estacionamento da Arena
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·27 de fevereiro de 2025
Na última terça-feira, 25, o presidente do Corinthians Augusto Melo concedeu entrevista ao jornalista Benjamin Back para seu programa no YouTube Benja Me Mucho. Durante a conversa que durou quase duas horas, diversas pautas sobre o clube foram discutidas, mas um dos temas vem repercutindo bastante entre os torcedores: o contrato de estacionamento da Neo Química Arena.
Augusto reclamou sobre o acordo. “O Corinthians deve pro estacionamento, acho que R$ 1 milhão. Você vê como é difícil pagar as dívidas do Corinthians, né? Um contrato de estacionamento onde nós não recebemos um real do estacionamento. Ou seja, a propriedade é nossa, o estacionamento está ali junto com a nossa Arena. (…) De 2014 pra cá o Corinthians, assim que eu saiba, nunca recebeu nada”, afirmou.
Foto: Reprodução/Corinthians
O dirigente também acusou a gestão passada de renovar esse contrato no final do mandato e sem a ciência da nova diretoria: “(Renovou) Até 2030. Quando eu ganho a eleição, parece. Teve muitos contratos que foram feito aditivos e renovados depois que eu ganhei a eleição, na véspera. Depois que eu ganhei a eleição também. No dia 28, 27, 29 de dezembro (de 2023), nessa época. Sem a gente saber, sem a gente ser comunicado. Manda o presidente do conselho investigar isso”, finalizou Augusto, citando indiretamente Romeu Tuma Júnior, do Conselho Deliberativo.
Importante observar que alguns contratos assinados pela gestão Duilio Monteiro Alves chegaram a ser analisados pelos órgãos internos do Corinthians, especificamente os firmados com as empresas Ezze Seguros, Brax e AR Foods. Os resultados foram apresentados pela Comissão de Justiça em 27 de maio de 2024, durante reunião do Conselho Deliberativo (CD), na qual Augusto Melo estava presente, e nenhuma ilegalidade foi detectada. O pedido dessa análise partiu do conselheiro Rafael Castilho na primeira reunião da atual composição do CD, em 1º de fevereiro do ano passado.
Consultora analisou contrato
No entanto, documentos internos do Corinthians não sustentam as afirmações de Augusto Melo sobre o tema. A Central do Timão teve acesso a cópias de e-mails trocados no início de 2024 entre a atual gestão e representantes da EY, consultora contratada no início da atual gestão para auxiliar na reorganização do clube e investigar contratos assinados em gestões anteriores, cujo tema era exatamente o contrato de cessão do estacionamento da Neo Química Arena.
Em uma das trocas de e-mails, uma representante da consultora envia a um membro da diretoria financeira do Corinthians uma lista com sete contratos assinados em gestões anteriores, escolhidos pela atual gestão do clube para serem analisados. O primeiro fornecedor da lista é a Indigo Estacionamentos, empresa que administra esse setor do estádio alvinegro.
O resultado desta investigação, inclusive, é uma das atuais polêmicas envolvendo a gestão Augusto Melo. Isso pois antigos membros da diretoria de Augusto Melo, ouvidos pela Central do Timão, garantem que a EY não só concluiu a análise e o background check destes contratos como entregou o relatório com suas conclusões à diretoria, ainda no primeiro semestre de 2024.
No entanto, o presidente corinthiano tem adotado, há meses, a postura de negar que tenha recebido qualquer relatório. Em entrevista recente ao portal Meu Timão, o mesmo reafirmou essa posição, garantindo que iria consultar o departamento jurídico sobre o assunto. A Central do Timão voltou a procurar a assessoria do presidente nesta quinta-feira, 27, e a resposta foi a mesma de antes: “Não recebemos o relatório.”
Contrato não foi renovado
Outra troca de e-mails recebida pela Central do Timão ocorreu um pouco antes desta, em março de 2024. Nela, representantes da EY respondem a um membro da diretoria jurídica do Corinthians sobre qual seria o impacto financeiro de uma rescisão antecipada do acordo assinado com a Indigo.
A análise desmente que o acordo tenha vigência até 2030 e que tenha sido renovado no final de 2023. Além disso, explica o motivo de o clube em si não ter recebido valores: o acordo foi assinado entre a Indigo e a Arena Fundo de Investimento Imobiliário (FII), que à época era a gestora do estádio e, portanto, destinatária do montante previsto no documento. O Corinthians consta apenas como “interveniente anuente”, algo como uma terceira parte interessada. Confira os principais pontos da análise:
1 – Vigência do contrato: a EY confirmou que o acordo foi assinado em 11 de maio de 2018, durante o mandato de Andrés Sanchez, com vigência de 120 meses, entre 31 de maio de 2018 e 30 de maio de 2028. Além disso, em momento algum a EY cita qualquer renovação nesse acordo, que portanto não foi alterado na gestão Duilio Monteiro Alves;
2 – Remuneração do acordo: a Indigo se comprometeu a pagar R$ 11,4 milhões pelo acordo, sendo R$ 2,5 diretamente à Omnigroup Soluções e Consultoria, que operava o estacionamento anteriormente; outros R$ 8,4 milhões à FII (Fundo Arena); e mais R$ 500 mil a título de fundo de reserva, cujo pagamento dependeria de a Indigo cumprir com a meta de investir R$ 1,656 milhão na operação do estacionamento;
3 – Isenção de aluguel: o acordo afirma que não haverá cobrança de aluguel sempre que o valor do faturamento líquido anual do estacionamento for igual ou inferior a R$ 4,888 milhões, valor esse atualizado todos os anos a partir de 2018. Superando esse valor, o aluguel devido será de 71% do montante que exceder essa faixa;
4 – Possibilidade de renovação: a EY constatou que o acordo prevê uma possibilidade de renovação automática do contrato em maio de 2028. Tal renovação seria feita pelo “número de meses necessários para atingir o faturamento líquido adicional equivalente ao Valor Faltante”;
5 – Rescisão: o acordo prevê rescisão por justa causa em caso de atraso nos aluguéis por três meses consecutivos, e sem justa causa apenas após a vigência dos 10 anos do acordo, caso a prorrogação automática seja ativada – nesse caso, bastaria um aviso prévio de 30 dias para efetuar a rescisão;
6 – Rescisão imotivada: a EY calculou, a pedido da gestão Augusto Melo, o valor da multa caso o Corinthians decidisse romper o acordo. Em 5 de março de 2024, o valor girava em torno de R$ 12,6 milhões. O montante foi calculado a partir do valor mensal do restante do acordo (R$ 252 mil) multiplicado pelo número de meses até o término do vínculo (50).
Mesmo com a consulta para rescindir o contrato com a Indigo, o Corinthians permaneceu com o vínculo, que permanece ativo até hoje. Recentemente, os estacionamentos da Neo Química Arena tem recebido críticas de torcedores nas redes sociais devido à superlotação em dias de jogos e também com relação aos valores cobrados, que inclusive aumentaram nesta quinta-feira para taxas entre R$ 131 e R$ 480.
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