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Do passado na favela ao futuro com o Barcelona, Agüero deu uma ótima entrevista sobre sua história no futebol

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A estreia de Sergio Agüero pelo Barcelona, enfim, deve acontecer em breve. O argentino passou as últimas semanas se recuperando de lesão e voltou a participar dos últimos treinos dos blaugranas – inclusive marcando gol. Será uma esperança em meio ao caos que tomou o Camp Nou. Quando desembarcou na Catalunha, Kun esperava reeditar a parceria com Lionel Messi, seu velho amigo desde as seleções de base. Agora, precisará se virar sem o craque ao lado e com uma tremenda pressão sobre o futebol ruim dos culés.

Nesta quinta, Agüero conversou com o jornal El País. O atacante comentou sua relação com o novo clube e sua reação após a saída de Messi, mas também abordou outros tantos assuntos. Relembrou seu passado na favela, detalhou a relação de seu filho com Maradona, recontou histórias dos tempos de Manchester City. Mostrou como é um grande personagem, que agora tentará marcar seu nome também com o Barcelona. Abaixo, traduzimos os principais trechos:

A chegada ao Barcelona

“Não me arrependo de ter assinado com o Barcelona. Vamos ser sinceros: qual jogador não quer estar no Barça? Eu te diria que a maioria dos jogadores gostaria de vestir essa camisa, não importa se o Barça esteja bem ou mal. Cheguei com a expectativa de jogar com Leo e de que se armasse uma boa equipe, era o que o clube tratava de fazer. Quando me chamaram eu pensei: ‘Não importa o que me paguem, estou me sentindo bem e vou ajudar a equipe no que puder’. Em ajudar o time com algum gol cada vez que puder jogar”.

A saída de Messi

“Foi um momento de choque. Leo estava muito mal. Quando descobri, não podia acreditar. Naquele sábado fui vê-lo em sua casa. E, por minha personalidade, como não o via bem, tentava fazer com que se esquecesse do que tinha acontecido. Via que ele estava meio abatido e tentava distrair. Contava sobre minha equipe de e-sports e as coisas que estávamos fazendo”.

O auge da carreira

“Eu jogo para me sentir entre os melhores. No City, fiz as coisas muito bem para que a torcida e os jornalistas pudessem me valorizar como um dos melhores do mundo. Sei, claramente, que há outros melhores e não tenho problema em reconhecer isso. Mas eu fui bem. Estive num nível alto e ganhei muitos títulos”.

O sonho de levar a Bola de Ouro

“Muitas vezes pensei que me faltava dar algo a mais. E um dia perguntei a Messi. Ele me disse que, para ter chances de ganhar a Bola de Ouro, precisava ganhar a Champions. Ele tem razão. É importante também as copas com as seleções. Veja o caso de Cannavaro, por exemplo, quando ganhou o Mundial em 2006. Joguei grandes temporadas, fiz muitos gols e ganhei muitos títulos, mas não estava na final da Champions. Justamente na temporada passada, quando chegamos à final, tive o problema no joelho, a covid e as diferentes lesões”.

A relação com Guardiola

“Nunca tive problemas com Guardiola. Jamais discuti com ele. Sim, tivemos que esclarecer coisas. Quando ele chegou, como não nos conhecíamos, tivemos uma etapa de aproximação. Os últimos três anos foram fantásticos, nada a dizer. Ele é um treinador que sempre quer o máximo. Se tem uma ideia de partida na cabeça, faz. Não se importa em deixar fora do time aquele que marcou três gols nos últimos jogos. Dá no mesmo o nome do jogador, a menos que seja Messi. Sempre aceitei quando tinha que jogar ou não. Gabriel Jesus, assim que chegou a Manchester, começou como titular. Eu não disse nada. Pensava que chegaria meu momento, que precisava seguir trabalhando. E não me esqueço, Gabriel se machucou contra o Bournemouth. Não tínhamos atacantes e precisei jogar. Marquei 20 gols nesses três meses e dei a Pep a confiança que ele precisava”.

A perda de Maradona, seu ex-sogro

“Vivi mal a perda de Maradona, muito mal. Como poderia viver isso? Tinha um jogo de Champions nesse dia. Quando soube, pensei que era mentira, como tantas outras vezes. Mas como via que cada vez mais gente dizia, perguntei diretamente à mãe de Benjamín [Giannina, sua ex-esposa]. Eu me lembro até o que perguntei. ‘É verdade ou não?’, eu escrevi. Ela me respondeu que sim. Eu pensava em meu filho, que precisava ligar para ele. Eu me preocupava muito sobre como receberia a notícia. Quando pudemos falar, ele já sabia por um amigo de colégio. Diego e Benja se davam muito bem. Diego era fenomenal com meu filho e Benja o amava”.

“Pedi à minha irmã que fosse buscá-lo no colégio e tentasse distraí-lo. No dia seguinte ele me escreveu: ‘Papai, quero ver meu avô’. Não gostava da ideia, tinha medo que ficasse com uma lembrança ruim. Mas como ele queria, deixei. Ele foi ao velório na Casa Rosada com a mãe. No dia seguinte, ele me disse que deu um beijo em Diego e chorou. Eu tentava me conter para que meu filho não me visse mal. Foram dias muito difíceis. Ao menos, Benja pôde se despedir do avô”.

O passado na favela

“Tinha 16 anos na última vez em que fui à favela onde cresci. Quando perguntei sobre os meninos com quem andava, um estava morto, outro preso, outro a polícia estava atrás. Garotos de 15 anos. Ainda mantenho contato com alguns dos meus amigos. Seguimos falando mais de 20 anos depois. Escuto as pessoas falarem das favelas e penso que não têm nem ideia do que é. Quem está lá tem outra vida, está em seu mundo. Há um sistema próprio, com suas quitandas, seus açougues, seus armazéns. Há de tudo. E tudo acessível para as pessoas da favela. O problema é que é muito difícil de progredir. Aconteceu com meu pai. Buscava trabalho e muitas vezes não davam quando dizia o lugar onde vivia. E isso segue acontecendo. Existem pessoas complicadas também, claro, mas também muita gente de trabalho, como meus pais, que querem o melhor para eles e para a família. Mas parece que querem que a gente fique sempre lá. Que vivamos nossa vida lá”.

O talento para sair da favela

“Você tem que ter talento para sair, sim. E sorte, muita sorte. Precisa de alguém que te ajude. Eu tinha meu pai, que conhecia uma pessoa que trabalhava no Independiente. Todo ano ele ia encher o saco para que fizessem um teste comigo. Se não tivesse sido por ele, não teria acontecido. Falei com outros garotos, como Tevez, e todos passaram por uma situação parecida”.

O futebol é a única solução a quem sai da favela? E os estudos?

“Aquele que vive na favela tem que ir a uma escola pública. Vou contar o que aconteceu comigo, não sei como é agora. Quando fui aprovado no Independiente, o clube me mandou a uma escola particular. Eu tinha 12 anos. Lá estavam fazendo divisões de três dígitos e eu, na escola pública, fazia de um dígito. Imagine a diferença. Não estava capacitado para estar lá e comecei a me sentir mal. Não me sentia cômodo nem livre. Queria voltar ao meu lugar, onde a professora me entendia. É uma lástima que isso aconteça. É uma lástima que tenha que se recorrer a escolas privadas”.

A solução para as favelas

“Talvez a solução passa por uma maior participação das prefeituras. Não tem que ser um tema nacional. Um presidente não pode fazer mágica. A própria prefeitura tem que tentar dar trabalho às pessoas. Eu não sei de política, mas sei o que se passa numa favela. As pessoas falam mal das redes sociais, e pode ser que em algumas coisas elas têm razão. Mas, ao menos, nas redes sociais se mostra a realidade do que acontece. Antes, as pessoas só podiam ver o que passava na TV. Isso não é verdade. Então, quem vive na favela sente que mentem. Eu vivi nos dois lados, sei como são as coisas”.

A importância do pai na carreira

“Um dia perguntei ao meu pai por que me enchia tanto a paciência. Sempre me dizia que eu jogava mal, até hoje. Com Messi acontecia o mesmo e choramos de rir. Meu pai foi muito rígido e queria que eu não relaxasse. Um pouco maior, eu perguntei a ele por que não me deixava jogar bola. Ele disse que fazia porque sabia que eu tinha muita qualidade e fazia muita diferença. Queria botar na minha cabeça que eu amava o futebol. Cada vez que me proibia de jogar, mais eu gostava da bola, mais queria treinar. Hoje mudou muito tudo”.

A relação com as novas gerações

“Na minha época, havia muito respeito aos mais velhos e ao treinador. Se diziam algo, ou se te batessem, você aguentava. Se algum grande fazia uma brincadeira, você ficava calado. Mas tudo isso que sofremos, agora não fazemos. E, como hoje tratamos os jovens de forma diferente, eles extrapolam a confiança. Às vezes é preciso definir limites. Hoje os jovens são muito afetados pelo que é dito, ficam ofendidos quando você diz que jogaram mal, e ainda baixa o moral. É incrível. Tenho boa relação com os mais novos e busco a maneira de dizer as coisas para que não levem mal. Quero ganhar, não quero um companheiro cabisbaixo. Mas acontece o mesmo com meu filho. Se diz algo, ele fica com raiva”.

Benja vai ser jogador?

“Ele joga bem. Mas, se você gosta do futebol, tem que ter outra mentalidade. O sacrifício é muito importante. Na última vez que ele veio me ver, perguntou se eu nunca faltei um treino. Respondi que nunca. Ele mudou a cara. A maioria dos jogadores que chegam longe é pela disciplina, pelo respeito que mostram e porque são muito responsáveis. Gostaria que Benja fosse jogador, mas, se ele não gostar, quero que estude. Que tenha a possibilidade que eu não pude ter”.

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