🤔 Clubismo OF: o Santos acertou em contratar Robinho?

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Carter Batista

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Como toda a gente sabe, a polêmica contratação do atacante Robinho pelo Santos Futebol Clube – a despeito da condenação por violência sexual que o atleta recebeu na Itália – gerou intenso debate sobre punitivismo, ressocialização do condenado e posicionamento das agremiações esportivas sobre casos de violência contra a mulher e outros crimes repugnantes.

Em nota oficial, o Santos defendeu a contratação afirmando que a condenação perante a Justiça Italiana não é definitiva e que o vínculo é justificado pelo princípio constitucional da presunção de inocência.

Em primeiro lugar, precisamos esclarecer que toda a discussão sobre ressocialização não se aplica ao caso, uma vez que o atleta não iniciou o cumprimento da pena. A promoção de medidas que visam à ressocialização do condenado é um importante marco civilizatório, porém deve significar uma segunda chance e não uma medida de total apagamento da conduta que levou à condenação. Em todo caso, como já dito, por enquanto, a medida não se aplica a Robinho.

Já o princípio da presunção da inocência (nos casos em que se aplica) tem a função de evitar o cumprimento da pena antes do trânsito em julgado e nunca pode ser compreendido com um salvo conduto absoluto, como o clube propõe com relação ao jogador. Esse princípio não impede a formação de convencimento de culpa do acusado. Tanto é verdade que a justiça italiana formou sua convicção pela culpa do réu na primeira instância.

Robinho foi condenado em primeira instância na Itália, por um colegiado formado por três juízes, e recebeu o benefício de recorrer em liberdade.

A agência italiana de notícias ‘ANSA’ publicou em 2018 o depoimento de uma das juízas do caso, integrante da nona seção do Tribunal de Milão. Segundo o relatório publicado, o atacante brasileiro e um amigo demonstraram “desprezo absoluto” pela vítima “exposta a humilhações repetidas, bem como a atos de violência sexual pesados”, tudo descrito em “conversas interceptadas”.

Isso sem contar que em todas as nações desenvolvidas, nos crimes de natureza sexual, a palavra da vítima tem valor probatório maior, uma vez que esse tipo de crime é normalmente praticado na clandestinidade. Estando a palavra da vítima em consonância com os demais elementos probatórios, a condenação do acusado é uma decorrência lógica.

Dessa maneira, é impossível concordar com o entendimento do clube. É certo que os dirigentes responsáveis pela contratação estão arriscando a história ilibada do clube ao decidir nesse momento trazer um atleta que foi condenado por violência sexual.

Vestir a camisa a do Santos é o sonho de milhões de crianças pelo Brasil e seus representantes devem estar acima de qualquer suspeita.

A violência contra a mulher é uma chaga permanente em nossa sociedade e os clubes não são associações privadas comuns. O futebol é bem mais que um espelho social, o futebol é a meta e a inspiração da juventude.

Também não se pode falar em impedir o atleta de exercer a sua profissão, pois a própria Constituição da República Brasileira determina, por exemplo, que alguns cargos (devido à sua importância) não podem ser ocupados por pessoas que possuem antecedentes criminais: é o caso dos Delegados de Polícia, juízes e membros do Ministério Público.

O jogador de futebol, ainda mais o grande jogador, que atua nos grandes clubes, não é um simples funcionário da instituição e do futebol. Ele ocupa um posto de ídolo de jovens, crianças e adultos e, portanto, dele deve ser exigida a mesma moral ilibada, a mesma ficha e a mesma conduta ética e moral irrepreensível que é justo que se exija dos melhores e mais importantes de nossos representantes.


Carter Batista é colunista convidado do OneFootball e escreve a coluna Clubismo OF às quintas-feiras.


Foto dre destaque: Friedemann Vogel/Getty Images