Alemanha: do inferno em 2000 a glória em 15 anos | OneFootball

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·27 de agosto de 2020

Alemanha: do inferno em 2000 a glória em 15 anos

Imagem do artigo:Alemanha: do inferno em 2000 a glória em 15 anos

A coluna Quebrando Muros dessa semana te conta a história do inferno alemão vivido na Eurocopa de 2000. O ano revelava mais uma disputa da UEFA Euro. Pela 11ª vez, o campeonato entre seleções mais importante do continente europeu seria disputado. O torneio, que sempre foi disputado em apenas um país, teria uma novidade importante: duas nações receberiam a competição. As encarregadas de estrear o novo modelo de distribuição foram a Bélgica e a Holanda. E a Alemanha, tricampeão mundial, estaria na disputa mais uma vez.

Belgas e holandeses, bem como bons anfitriões, teriam o prazer e o privilégio de presenciar o desfile de grandes craques e seleções consagradas. E para a edição, o cardápio estava recheado. Opções não faltavam para encher os olhos de todos os assíduos por um bom futebol. Seleções como a França(atual campeã mundial), Itália, Portugal, Holanda e Espanha eram apontadas como as mais fortes concorrentes na busca pelo título. Todavia, havia ainda possibilidade para as sempre marcantes surpresas, como a Romênia.


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Indo na contramão dos favoritos a conquistar o torneio estava a Alemanha. Mesmo sendo a atual campeã do torneio (venceu a Tchecoslováquia por 2 x 1 em 1996), os Die Mannschaft chegavam enfraquecidos para a Euro 2000. Fosse pela idade avançada do seu grande craque, o meia Lothar Matthaus com 39 anos,  ou o fracasso retumbante na Copa das Confederações de 1999, as perspectivas alemãs para o torneio não eram boas.

A PREPARAÇÃO DA SELEÇÃO ALEMÃ

Sob o comando de Berti Vogts, a seleção havia conquistado o título da Eurocopa em 1996. Na ocasião, uma vitória histórica contra a Tchecoslováquia, de virada, com um “gol de ouro” marcado por Oliver Bierhoff já na prorrogação garantiu o tricampeonato à Alemanha.

O sucesso na UEFA Euro 1996, realizada na Inglaterra, garantiu motivação e confiança aos alemães a desempenhar um bom papel na Copa do Mundo de 1998. Todavia, a participação em solo francês não foi marcante. O grande marco foi a humilhante eliminação nas quartas de final para a surpresa Croácia (3 x 0).

Todavia, uma participação frustrante na Copa das Confederações de 1999, com queda na primeira fase e uma goleada sofrida para o Brasil (4 x 0), colocaram sob suspeita um desempenho memorável na Eurocopa de 2000. Foram duas derrotas e apenas um vitória no torneio disputado no México.

A confiança havia se abalado e as críticas sobre o trabalho de Erich Ribbeck aumentado. Entretanto, a boa participação nas eliminatórias de qualificação para o torneio europeu deram um pouco de fôlego ao treinador e a uma seleção que já não prometia realizar um grande trabalho.

DESTAQUES PARA A COMPETIÇÃO

Com um elenco sem muitas caras novas, a Alemanha chegou à Bélgica para a disputa de mais uma UEFA Euro. Era a oitava vez que a seleção disputava o torneio, desde a primeira vez, em 1972. Mesmo com o desfalque importante do polêmico Stefan Effenberg e ainda que a equipe inspirasse dúvidas, alguns jogadores mereciam grande destaque.

O goleiro Oliver Kahn começava a se firmar no gol da seleção. Após ter sido reserva de Andreas Kopke em toda a campanha do tricampeonato em 1996, o arqueiro do Bayern de Munique seria um dos grandes pilares de um time que não inspirava muita confiança. Entretanto, à época, ele já possuía 31 anos.

Outro destaque do time dispensava apresentações, já que tratava-se simplesmente de Lothar Matthaus. Com 39 anos, já possuía uma carreira consolidada, onde desfilou sua qualidade técnica por equipes como o Bayern de Munique e a Internazionale(ITA). Mas, vivenciando os últimos momentos de sua brilhante jornada no futebol, o atleta defendia o New Jersey Metrostars (EUA). Todavia, o time mudou de nome e atualmente é conhecido como New York Red Bulls.

Havia ainda as esperanças de futuro da seleção, como o meia Jens Jeremies de apenas 26 anos, apontado como sucessor de Matthaus na seleção. Além dele, o jovem Michael Ballack de 23 anos, já era considerado uma promessa. Naquele momento, ele defendia o Bayer Leverkusen.

LISTA DE CONVOCADOS

O técnico Erich Ribbeck levou 22 jogadores para a disputa da competição. A lista estava formada por:

Goleiros: Oliver Kahn, Jens Lehmann e Hans Butt;

Defensores: Markus Babbel, Thomas Linke, Jens Nowotny e Marko Rehmer;

Meias: Michael Ballack, Lothar Matthaus, Sebastian Deisler, Jens Jeremies, Carsten Ramelow, Mehmet Scholl, Dariusz Wosz e Christian Ziege;

Atacantes: Paulo Rink, Oliver Bierhoff, Marco Bode, Carsten Jancker e Ulf Kirsten.

ENFIM, BOLA EM JOGO! COMEÇA A UEFA EURO 2000 PARA A ALEMANHA

Sob a já habitual desconfiança, a Alemanha estreou na UEFA Euro de 2000. No dia 12 de junho, a seleção entrou em campo contra a Romênia do jovem Chivu, no estádio de Sclessin, em Liége (Bélgica). Todavia, a partida já começou mal para os alemães. Logo aos cinco minutos, Moldovan recebeu passe e finalizou no ângulo de Kahn, que nada pode fazer.

Entretanto, os romenos sentiram, ainda na primeira etapa, a potência do chute de Mehmet Scholl. Com um golaço, o alemão empatou a partida e reascendeu as esperanças de uma estreia positiva. Mas não passou apenas de um mero fiapo de luz em uma escuridão apenas em estágio inicial. Empate decepcionante. E nem se imaginava que seria o melhor resultado durante todo o torneio. Portanto, as expectativas para os jogos contra Inglaterra e Portugal não eram nada boas.

Na segunda partida, contra a Inglaterra em Charleroi, a Alemanha precisava de uma vitória. Entretanto, os ingleses não iriam facilitar, já que haviam perdido um jogo praticamente ganho contra Portugal na primeira rodada. Os alemães foram valentes, mas não foram páreos. Com um gol do artilheiro Alan Shearer, a Inglaterra venceu por 1 x 0 e dificultou muito a vida dos alemães. Assim, o desastre começava a ser perigosamente escrito.

Para a derradeira partida, contra Portugal, a Alemanha precisava de um milagre para se classificar. Precisava vencer os portugueses e torcer para um empate no confronto entre Romênia x Inglaterra. Classificados, os Quinas pouparam muitos jogadores, como os craques Rui Costa e Luís Figo.

Mesmo assim, o jogo foi fácil demais para os portugueses. Com um hat-trick de Sérgio Conceição, Portugal venceu a Alemanha por 3 x 0. O goleiro Oliver Kahn teve uma noite desastrosa, falhando em dois gols. Era o fim de uma campanha trágica.

CRÍTICAS AO DESEMPENHO E NECESSIDADE URGENTE DE RENOVAÇÃO

A UEFA Euro de 2000 foi um verdadeiro fracasso para a Alemanha. Aproveitamento pífio, apenas um gol marcado, nenhuma vitória e péssimas apresentações coletivas, levaram a seleção a ter um desempenho vergonhoso. Os alertas da necessidade de renovação presentes desde a Copa do Mundo de 1998, nunca haviam feito tanto sentido.

Ninguém poderia imaginar uma campanha tão ruim. Claro, as expectativas já não eram boas. Mas o futebol alemão foi virado de cabeça para baixo após o fim da participação no torneio. Lothar Matthaus, prestes a se aposentar, não merecia encerrar sua história nos gramados desta forma. Oliver Kahn, que ainda teria mais tempo de carreira, iria conviver com o fantasma de suas atuações ruins. Especialmente a última, onde foi presa fácil de Portugal.

Se houve algo positivo na campanha alemã, atende-se pelo nome de Mehmet Scholl. Autor do único gol marcado pela seleção, o jogador, que foi reserva em 1996, caminhava para se tornar o destaque quase único de um time nada brilhante. Outro que mereceu destaque foi Sebastian Deisler, meia que à época atuava no Hertha Berlim.

Para superar o inferno astral que vivia a seleção, era necessária uma reformulação. E ela era urgente. Não havia mais a possibilidade de adiá-la. Entretanto, as mudanças não deveriam acontecer no time principal, mas sim nas raízes, isto é: nas categorias de base dos clubes. Começava assim um projeto longevo e árduo, mas que traria bons frutos no futuro.

MUDANÇAS SIGNIFICATIVAS EM TODOS OS SETORES

Após a Euro de 2000, clubes e a federação se uniram em reuniões para debater a necessidade de renovação futebolística no país. Todavia, os segredos não existiam: o país estava sim atrasado e necessitava mudar. Era necessária a criação de uma base para brilhar no futuro, independente de quais seriam os resultados mais imediatos.

Assim, 36 clubes investiram pesado nas categorias de base. À época, foram gastos US$ 1 Bilhão ( o equivalente a 5,4 bilhões de reais) em academias e centros de treinamentos. Mesmo com a Copa do Mundo de 2002 batendo a porta, não se poderia acelerar um processo tão importante. Em meados de 2014, a Alemanha possuía 370 centros de treinamentos para menores em todo o país, com mais de 25 mil jovens tentando a sorte no esporte.

Logo no início do trabalho, os times investiam cerca de R$ 125 milhões por ano. Entretanto, esse valor vem aumentando exponencialmente nos vinte anos do projeto adotado pelos clubes e pela Federação Alemã. O poderoso Bayern de Munique, por exemplo, tem cinco campos de treinamento. Todavia, chama a atenção a quantidade de atletas treinando na base do clube. Eram quase 200 jogadores em 2014.

Na seleção principal, as mudanças já haviam se iniciado. Matthaus se aposentou e Erich Ribbeck, como esperado, foi demitido do comando técnico. O jovem atacante Miroslav Klose, em ascensão no tradicional Kaiserslautern, passou a ser constantemente convocado pelo novo treinador, Rudi Voller. Nas eliminatórias para o Mundial, a seleção se classificou após eliminar a Ucrânia nos playoffs.

BONS RESULTADOS EM TORNEIOS E CONSAGRAÇÃO HISTÓRICA NO BRASIL

Apesar de  longo e também demorado, a Alemanha necessitava de uma renovação. Este processo já começou a ser sentido durante a Copa do Mundo de 2002. Já com uma base diferente do fiasco na Eurocopa de dois anos atrás, a seleção comandada por Rudi Voller surpreendeu e chegou na final da competição. Entretanto, foi derrotada pelo Brasil por 2 x 0.

Mesmo tendo feito uma Eurocopa discreta em 2004, a confiança de bons resultados permanecia. Em 2006, em uma Copa do Mundo em casa, a confiança estava em alta. Já sob o comando de Jurgen Klinsmann e com uma seleção recheada de bons e promissores talentos, como Philipp Lahm e Bastian Schweinsteiger, a Alemanha fez bonito e chegou a semifinal. Todavia, não foi párea para a Itália e deixou a competição com uma derrota por 2 x 0.

Tendo perdido a final da Eurocopa de 2008 para a Espanha, a seleção chegou confiante a Copa do Mundo de 2010 na África do Sul. Entretanto, sob o comando de Joachim Low,  o roteiro foi extremamente parecido com o de 2010. Boa participação, mas queda na semifinal. E novamente para a seleção espanhola por 1 x 0. A dor de 2008 se repetia.

Contudo, as decepções foram absolutamente esquecidas em 2014, durante a Copa do Mundo realizada no Brasil. Com seis vitórias em sete jogos, incluindo, claro, um 7 x 1 sobre a seleção brasileira na semifinal, a Alemanha estava pronta para decidir mais um Mundial. Só que a tristeza de 2002 não se repetiu. Vitória marcante sobre a Argentina de Lionel Messi no Maracanã por 1 x 0 e o tetracampeonato foi conquistado. A cereja do bolo estava a posta.

ALEMANHA PROVA QUE RENOVAÇÃO E MUDANÇAS SÃO SEMPRE NECESSÁRIAS AO FUTEBOL

É importante sempre observar que, a Alemanha fortaleceu sua seleção nacional a partir do desenvolvimento das categorias de base dos clubes, justamente onde os mais novos talentos começam a ser lapidados. Paul Breitner, herói do até então último título relevante alemão, revelou isso em uma entrevista à ESPN Brasil.

“Não adianta mudar com jogadores de 17, 18 e 19 anos. E sim meninos de 11, 12 e 13 anos. E você realmente precisa mudar coisas que importam. É o caminho. Quando você diz que nosso último título foi em 1996, foi um dos divisores de águas no futebol alemão. Desde o início dos anos 90 o futebol muito e no início da última década. E nós estávamos pensando que éramos os melhores, que não tínhamos que aprender nada com ninguém“

De fato, esta humildade dos alemães em observar a necessidade de renovação para buscar o espaço entre as grandes disputas de títulos foi fundamental para que a seleção voltasse a ocupar os níveis mais altos do futebol mundial.

Prova-se a lógica de que o futebol, assim como a vida, são instrumentos que necessitam de renovações frequentes e constantes. Ora, se os Mannschaft tivessem dado as atenções ao egoísmo e tivessem mantido sua forma de jogar, teríamos hoje uma seleção fraquíssima, refém eterna de craques no auge da idade, que não poderiam entregar e se doar mais da mesma forma que antes.

Neste contexto, emergem os jovens, assíduos por conquistas e por buscar o devido espaço, não apenas na seleção, mas sim nos clubes. E essa lógica acaba por ser universal. O futebol é um longo caminho, de onde se apresentam e se despedem craques todos os dias. Entretanto, renovação e mudanças são presenças obrigatórias nesta longa jornada.

Foto destaque: Reprodução/ Germany's/ Deutschlands Nationalmannschaft

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