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A história do último sobrevivente da Copa do Mundo de 1930

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Em 2030, a Copa do Mundo completa 100 anos de existência. E foi justamente com essa idade que o último jogador vivo a ter disputado a primeira edição do torneio faleceu.

Mas Francisco Varallo foi muito mais do que apenas o último jogador ainda vivo da primeira Copa do Mundo. Vale a pena conhecer um pouco mais da história de uma das maiores lendas do futebol argentino.

Nascido em 1910, na cidade de La Plata, Francisco Varallo se tornou ídolo do Boca Juniors, clube do qual é o terceiro maior artilheiro da história – com 194 gols, foi superado em 2008 por Martin Palermo (236 gols ao todo) e está atrás de Roberto Cherro (218), seu companheiro nos tempos de Boca.

Começou atuando de forma amadora em clubes de La Plata, como o Ferro Carril Sud e o 12 de Octubre, e depois rumou a um dos clubes mais tradicionais da cidade, o Gimnasia y Esgrima, ficando de 1928 a 1930.

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Tinha como uma das suas principais características o chute forte. Por conta disso, acabou ganhando o apelido de Cañoncito, ou “Canhãozinho”, já que também notabilizou-se pela baixa estatura – apenas 1,70m. Também era chamado de Pancho, apelido comum para o nome Francisco.

Varallo ganhou projeção como um dos destaques no título do Gimnasia no Campeonato Argentino de 1929, o único em toda a história do clube, apesar de questionado por ter sido disputado ainda na época do amadorismo – o primeiro campeonato profissional na Argentina foi o de 1931, quando Varallo também foi campeão, mas pelo Boca.

Com isso, conseguiu vaga para disputar a Copa do Mundo de 1930, no Uruguai, com apenas 20 anos de idade. No torneio, a Argentina foi vice-campeã, perdendo a taça para o Uruguai.

A Copa de 1930

Francisco Varallo estreou pela seleção argentina em maio de 1930, em um amistoso justamente contra o Uruguai, quando marcou um gol no empate por 1 a 1.

Jogando com a camisa 8, Varallo teve participação discreta no Mundial daquele ano, mesmo sendo titular da equipe. Marcou apenas um gol, na goleada da seleção por 6 a 3 sobre o México, válido pela primeira fase – o país terminou na liderança do Grupo 1 e avançou para as semifinais.

Lesionado, perdeu a semifinal, na qual a Argentina não teve dificuldade para golear os Estados Unidos por 6 a 1. Apesar do revés, foi a melhor classificação dos norte-americanos na história das Copas do Mundo até aqui.

Veio então a final contra os vizinhos uruguaios, com os quais os argentinos nutriam uma grande rivalidade, potencializada pela derrota na final olímpica de 1928. Varallo foi titular, mesmo sofrendo com dores da lesão. No entanto, a exemplo do que aconteceu nos Jogos Olímpicos de Amsterdã, a Argentina não foi páreo para os bicampeões olímpicos, que venceram por 4 a 2.

Varallo estava em campo naquela final e chegou a acertar a trave em uma conclusão, mas não conseguiu marcar nenhum gol para ajudar o seu país a sair vencedor na primeira Copa do Mundo. A Argentina atuou com Botasso; Della Torre e Paternoster; Juan Evaristo, Monti e Suárez; Peucelle, Varallo, Stábile, Ferreira e Mario Evaristo.

Naquele jogo, por sinal, houve um desentendimento em relação à bola que seria usada. Após intervenção da Fifa, optou-se que a seleção argentina daria a bola para o primeiro tempo e a uruguaia daria a bola para o segundo.

Idolatria no Boca

Um ano depois da Copa do Mundo, Francisco Varallo acabou acertando sua transferência para o Boca Juniors – curiosamente o time contra o qual o Gimnasia fez a final do Campeonato Argentino de 1929. No clube bonairense, formou uma das maiores duplas da história com Roberto Cherro.

Cherro e Varallo foram precisamente os dois maiores artilheiros do Boca até Martín Palermo superar ambos. O primeiro era o maior na soma da era amadora com a profissional; o segundo, o maior na profissional isolada e o segundo maior no geral.

“Os camisas 9 e o 10 devem ser um matrimônio. (…) Eu não teria sido o que fui sem ter tido Cherro. Dos meus 181 gols, 150 devo a ele. Me conhecia como se fosse uma mãe. Sabia meter a bola entre os beques, para que eu ficasse bem posicionado e desse no arco com tudo”, afirmou Francisco Varallo sobre o companheiro.

Também foi o autor do primeiro gol do Boca em um Superclásico na era profissional, em um lance em que perdeu um pênalti e só marcou no segundo rebote do goleiro. Estava no elenco do primeiro título argentino de um clube na era profissional do futebol argentino, conquistado pelo Boca Juniors, em 1931.

Venceria ainda o campeonato argentino em 1934 e 1935, seus últimos como jogador profissional.

Gol e vitória histórica

Imagem: Reprodução

Em dezembro de 1933, voltando à seleção após a final de 1930, ele marcou o único gol na vitória em um amistoso contra o Uruguai. Foi a primeira vitória argentina no Estádio Centenário sobre o rival.

“O camisa 9 deve ser egoísta (…). Íamos ganhando do Uruguai com um gol meu. De emoção, desmaiei no festejo. Já via as manchetes: ‘Varallo deu o título à Argentina’. Faltando pouco, (Vicente) Zito, que me substituiu, errou um gol incrível. Eu agarrava a cabeça no banco, mas de alegria. Queria que ganhássemos somente com o meu gol”, relembrou no fim da vida à revista El Gráfico.

Lesão e fim precoce da carreira

Com uma séria lesão no joelho, acabou entrando em má fase no fim da década de 30. Varallo só jogou uma vez no campeonato de 1938 e em 1939 não conseguiu marcar pelo menos duas vezes em uma mesma partida.

Pancho desistiu dos gramados aos 30 anos, na pré-temporada de 1940. Coincidentemente, o Boca Juniors voltaria a conquistar um título justamente neste ano, o mesmo que marcou a inauguração do estádio de La Bombonera, onde Varallo não pode desfilar o seu futebol.

Mas ele teve mais 71 anos de idolatria inconteste. No centenário do Xeneize, em 2005, só não recebeu mais aplausos que Maradona, confuso ao ser tão festejado por garotos, sendo esclarecido por eles que “por causa do senhor, meu avô virou torcedor do Boca Juniors. E por isso também somos”.

Morreu em 30 de agosto de 2010, na mesma cidade de La Plata onde nascera.

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