Zerozero
·2 April 2025
Da Oceânia a Leiria, passando por Munique: «Foi o ano em que o Bayern ganhou tudo!»

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·2 April 2025
Não há caminhos certos ou errados na estrada para o sucesso e prova disso é, a título de exemplo, um percurso profissional que passa da dúbia qualidade do futebol oceânico, para o integrar de um colosso europeu em época de conquista da tríplice coroa, até chegar, a seu tempo, ao futebol português.
Sarpreet Singh é o exemplo aqui referido, ao ter pavimentado essa estrada ao longo de uma carreira que arrancou em 2017 e que agora o vê mostrar talento nos campos da II Liga, ao serviço da UD Leiria.
À conversa com o zerozero, inicialmente a propósito de uma reportagem sobre os neozelandeses a atuar em Portugal, essa chegada ao futebol luso, sobre a qualificação para o Mundial e sobre uma memorável passagem pelo Bayern München, onde foi treinado por Flick e chegou a jogar ao lado de figuras internacionais.
zerozero (zz): Sair de Leiria para ir à Nova Zelândia jogar dois jogos é uma autêntica aventura, mas para si é o que tem acontecido nas janelas de jogos internacionais... Costuma partilhar essa experiência com os outros colegas que também jogam na Europa?
Sarpreet Singh (SS): Viajamos 30 horas para lá e depois é a diferença de horas que é mais dura no corpo. Muitas vezes vamos sozinhos até ao Dubai e encontramo-nos alguns de nós lá para apanhar o voo mais longo até Auckland.
zz: Mas esta pausa internacional não foi normal, pois não? Ganharam as meias e a final da qualificação da OFC, consigo a titular em ambos os jogos, e asseguraram um lugar no Mundial de 2026!
SS: Numa nota individual, é uma conquista muito boa. Tive muitos altos e baixos na minha carreira, por isso chegar ao Campeonato do Mundo é algo fantástico para mim. Sabíamos que éramos os favoritos neste novo caminho até ao Mundial, mas não há jogos fáceis no futebol e por isso tivemos de ser profissionais. A última vez que estivemos no Mundial foi em 2010 e agora queremos ir além disso. Queremos construir uma equipa e um estilo de jogo que crie problemas e aos adversários e nos permita sair da fase de grupos.
zz: Este novo apuramento, em que a Oceânia não precisa de passar pelo playoff, fez com que a vossa seleção conseguisse chegar ao Mundial com 29 golos marcados e apenas um sofrido. Cinco jogos no total. Sente que foi demasiado fácil, tendo em conta a dificuldade dos adversários que aí vêm?
SS: É bom encontrar diferentes tipos de equipas, isso é que nos prepara. Também não seria bom para nós se defrontássemos a melhor seleção do mundo todas as semanas. Durante alguns anos faltou-nos golos e por isso é bom sinal estarmos a marcar muito e a ganhar, porque sabemos como chegar à baliza e a zonas perigosas. Quando jogas com equipas de ranking mais baixo podes tentar construir coisas diferentes.
zz: Esta expansão do Mundial é, então, um positivo para a vocês?
SS: Penso que este novo formato é bom porque há uma equipa garantida no Mundial e não há nada melhor do que lá estar. O facto de nós estarmos bem também pode empurrar os outros para melhorar.
zz: Qual é o estado atual do futebol na Nova Zelândia, sendo que não é a modalidade principal? As coisas estão a evoluir?
SS: O futebol está a ir na direção certa e uma das nossas equipas profissionais está no topo da A-League [Liga Australiana, que tem duas equipas neozelandesas a competir]. O râguebi pode ser o maior desporto, mas há mais miúdos a jogar futebol do que râguebi e isso também mostra o caminho que estamos a fazer para o desporto continuar a crescer.
zz: O Singh também começou a carreira na A-League de forma muito promissora, tanto que deu o salto diretamente para o... Bayern München. Um sonho, não?
SS: Foi fantástico. Tive uma boa temporada, mas nunca poderia imaginar que isso me levasse para uma equipa como o Bayern. Fui para a segunda equipa, mas acabei por treinar e até jogar com a equipa principal, por isso senti logo que compensou todo o trabalho e todos os sacrifícios que fiz quando estava a crescer.
zz: Como disse, acabou por trabalhar com a equipa principal, ao lado de nomes como Lewandowski, Neuer e Müller. Foi também titular num jogo da Bundesliga, sob o comando de Flick!
SS: É uma sensação tão boa... Literalmente acabo de me mudar e de repente estou num estágio com a primeira equipa, ao lado desses jogadores, e parece tudo surreal. É bom, mas rapidamente percebes que eles são só pessoas normais que fazem muito bem o seu trabalho e é aí que ficas confortável, perdes os nervos e te começas a divertir a partilhar o campo com os melhores do mundo. Aprendi muito lá só por ver como eles se comportavam e tentar incorporar certas coisas no meu futebol.
zz: O que guardas dessa primeira temporada no futebol europeu?
SS: Houve tantos positivos, até porque esse ano em que joguei foi o ano em que o Bayern ganhou tudo, mas são as pequenas coisas. Ter conversas com estes jogadores sobre como melhorar e como viver a vida fora do campo... São conversas normais, mas é bom por serem com as pessoas que todos admiram e eles respeitam-te sempre e colocam-te ao nível deles. Não há arrogância nenhuma, como muitas vezes as pessoas pensam que existe.
zz: Depois dessa primeira temporada, as coisas começaram a ser menos boas...
SS: O primeiro ano foi bom e depois fui emprestado e tive uns meses diferentes [12 jogos no FC Nürnberg. Voltei e comecei a jogar mais e depois o meu segundo empréstimo foi um sucesso [seis golos e oito assistências no Jahn Regensburg].
Nessa altura era suposto mudar-me para uma equipa na Bundesliga, porque estava num nível superior ao da equipa B do Bayern, mas tive uma lesão e as coisas não avançaram. Depois disso foi sempre a descer porque precisei de tempo para recuperar da lesão e depois houve problemas com a minha inscrição.
zz: Diria que houve alguma falta de sorte no seu percurso profissional, então?
SS: Às vezes no futebol as coisas são muito boas e de repente há problemas e tudo deixa de correr bem. É difícil, mas é preciso aceitar e avançar com a vida. Penso que tenho a qualidade para jogar em níveis mais altos, mas estas coisas aconteceram em momentos difíceis. Agora faz parte da minha vida e todos temos jornadas diferentes no futebol. Cabe-me a mim continuar a dar o meu melhor e ver o que acontece, foi também assim que vim para Portugal.
zz: Do segundo escalão da Alemanha para o segundo escalão de Portugal... O percurso do Sarpreet Singh não foi, de todo, típico!
SS: A minha última época não foi com muitos minutos e por isso as opções ficam limitadas. E tive alguns convites lá, mas achei que era altura para algo diferente. Queria ir para um país onde se jogasse mais futebol, porque as divisões inferiores na Alemanha são muito físicas e à base da transição. Achei que era importante tentar outra coisa e quando Portugal surgiu eu só quis uma temporada a jogar com consistência.
zz: Chegou já no fim do mercado, com a época já a decorrer, mas mesmo assim acabou por conseguir agarrar um papel de destaque na equipa, especialmente depois da chegada de Silas. Como tem sido a experiência?
SS: Tenho gostado até agora. É diferente e obviamente há prós e contras em todos os níveis e em todas as ligas, mas é algo que tenho apreciado até agora. Olhando para trás, tenho jogado muitos jogos e tenciono continuar a jogar e a ajudar a equipa, de preferência para subirmos de divisão. Não estamos assim tão longe e se for esse o caso então seria muito bom dar por mim a jogar na primeira divisão portuguesa.
zz: Esses minutos consistentes, longe das lesões, também permitiram esse ressurgimento no contexto da seleção, onde tem sido titular de forma recorrente...
SS: Sim, tenho desempenhado um papel significativo na seleção... A competição está a ficar melhor, por isso o melhor é estar a jogar bem no clube para ter as melhores chances de jogar pela seleção. Lá também tenho uma boa estrutura e posso jogar com liberdade numa posição que me favorece. Quando isso acontece é quando eu jogo o meu melhor futebol e é por isso que esta época tem corrido bem e tem sido uma boa plataforma.
zz: Na seleção joga com Chris Wood, que não só é nesta altura um dos melhores avançados do mundo como é também o exemplo de um jogador que chegou à melhor versão numa idade mais avançada. Sente que pode ser uma inspiração?
SS: É mesmo por ser dos melhores que é fácil jogar com ele. Como um número 10, eu percebo bem os movimentos dele e cabe-me a mim dar-lhe o serviço de que ele precisa. Sinto que tenho uma boa ligação com ele em campo. Dá para ver tudo isso no Wood, mas hoje em dia vemos vários jogadores a chegar ao seu pico nos trintas.
O futebol está a mudar em termos de recuperação e tudo isso são coisas positivas. Eu tive os meus problemas, mas a minha qualidade ainda aqui está e por isso cabe-me a mim provar-me. Tenho 26 anos e sei que ainda tenho muito tempo na minha carreira, mas não posso tentar planear a longo-prazo porque é aí que as coisas começam a correr mal.
zz: E que tal planear a curto-prazo? Onde estará na próxima temporada?
SS: Ficar em Portugal é uma excelente opção. O objetivo agora é só ajudar a equipa e depois no fim da temporada vamos reavaliar as coisas. Estou muito confortável porque as pessoas são simpáticas, a comida é boa e tudo é acolhedor. Na Alemanha foi um pouco mais difícil, mas aqui sinto-me mais em casa.
Langsung